domingo, 30 de agosto de 2009

Caderno do cotidiano

Cotidiano
26/08/2009

Se ontem buscava um sentido,hoje ele já encontrado e entendido, para daqui a pouco ser perdido, me dá certa segurança. A vida é isso mesmo. Se não temos um manual, Vida modo de usar, vamos seguindo com ela desse mesmo jeito, tropeçando aqui e ali. Fazendo coisas que queremos e outras que achamos que queremos, e só descobrimos que não era bem assim, quando chegamos ao final do trajeto.
O cotidiano nos mostra que tudo é possível, que uma falha química dentro de nós pode provocar estragos enormes em nosso ponto de vista.
De manhã a sensação de obscuridade é enorme. Sveglio, num bom italiano, e fico pensando em tudo que envolve o dia e a sensação esquisita. A vontade é de voltar a dormir, para na morte do sono, esquecer que tem vida. Mas não dá. Tumultos de pensamentos detonam em marcha lenta todo o universo de questões por vir. O telefone toca. Tem que levantar. Quando levanto esqueço o que sonhava, num misto de dormir e acordar. Esqueço o que pensava e que planejava registrar.
O dia segue, meio dia o ânimo é outro, os desejos são diversos. Outra luz sobre o dia, conforme o sol, as cores, o sentir vai também se transformando. Ainda sinto um quê latente,um certo desconforto mental. Mas estou dominando isso tudo. Estou monitorando o que sinto. Tomo atitudes de acordo com a vontade que está violada mas não prejudicada pela dor do sentimento.
Final da tarde, início da noite, disperso em trabalho e falas e contatos humanos sou outro ser. O discernimento parece claro, tudo tem sentido e objetividade. Um pouco de ansiedade talvez, em fazer essa constatação, mas a plenitude do sentido me parece algo mágico. Questiono como pude pensar diferente em outra hora do dia . Chego em casa sem idéias viciadas. Sou dona de mim outra vez, sei quem sou, tenho sentido, entendo questões.


Sentido- o que sinto.
25/08/2009

Onde está, alguém pode me dizer onde está esse filho da puta sentido da vida? Poderia alguém me afirmar com todas as letras se esse infeliz que nos atormenta de fato existe. Se ele não é apenas isso mesmo, a vida. Essa jornada insalubre, perigosa, chata, cheia de coisinhas e chatices e mimos e desilusões. Cheia de momentos bons que são contados sem valer muito a pena, cheia de coisas desinteressantes e interessantes também. Se tudo é interessante o que é essa jornada, se não algo que não tem muito sentido.
Tem gente que diz que o sentido está em alguma causa em nome da humanidade, do planeta, de um povo. Talvez estejam certos, mas em qual causa nós pobres mortais estamos envolvidos? Eu não conheço ninguém que não esteja envolvido com a sua própria causa, e ela, apenas ela. Às vezes uma coisinha a toa pelo social, uma cesta básica e mais o que?
E que porcaria de sentido é esse?
Me pergunta se tenho valores para minha vida, se tenho um sentido discernido no meu consciente, não tenho. Tenho o que todo mundo tem. Viver . Esse é o sentido dessa bosta. Viver, comer, dormir, transar quando dá. Criar filhos. Talvez seja esse o sentido da vida de muitos. Tenho filhos para criar. O sentido da vida das pessoas é ter um filho e botar o seu sentido neles. Eles são responsáveis pelo sentido da vida delas(dessas pessoas). Daí se perdem os filhos, morrem também. Dão sua própria vida pelos filhos. Lógico o sentido da sua está neles, tem mesmo que dar. São a sua maior preocupação.
Será que eu terei que ter um filho para encontrar o filho da puta do sentido.
Toda hora eu repito em aula, tem um sentido na frase, a reunião de palavras só visam ter um sentido, um significado , senão não importa.
Mas que diabo de significado é esse, se para mim é uma coisa e para outro, outra.
Eu cansei, cansei de colocar nomes masculinos no sentido que procuro.Meu sentido não tem nome masculino, na verdade ele não tem nome, porque ele não existe, ele é ele, ou melhor ele é ela e somente isso. Acabou essência, acabou a vida . É mesmo isso aqui, e ponto final. O bicho pode comer e se saciar com toda carne adiposa em excesso que tenho.
Mas o que fica? Nada. Talvez um retrato desbotado na parede, a lembrança de alguém durante um tempo, e depois nada. Quem lembra de minha bisavó hoje? Ninguém. Ninguém se lembra, mesmo daqueles que ainda fizeram alguma coisa pelo mundo, nem sempre são lembrados. Então qual a porra do sentido disso aqui.
Para o capitalista acumular riquezas, mas pra quem? para que? No corpo não tem riquezas anexadas, só se fizer como faraó, ser enterrado com tudo junto. E na mente? Que adianta tanta intelectualidade, tanto pensamento, se também isso se esvai, e nem precisamos morrer, o Alzheimer, come tudo e te entrega ao desconhecimento de todos e de tudo.
Então qual é o sentido, meu Deus ??? O senhor que está morto e que é lembrado por todos, porque simplesmente é o todos. Tá no meio, “eu”, não é outro, é eu mesmo. Deus não é o outro, é o eu.
Quando dizem o eu é o outro, é mesmo, mas o reflexo de nós que vemos no outro, e não o outro propriamente dito. O reflexo de nós mesmo no olho do outro, é isso que acalma o bebê. Ele se vê nos olhos da mãe .
E quando nos deparamos com um outro que nos atormenta ficamos atormentados com nós mesmos.
Não sabemos quem somos ou o que queremos. Também como saber com tantas opções.
Vivemos o século das opções e não sabemos escolher , eu não sei escolher, não sei decidir. Porque simplesmente não vejo a porra do sentido em ter que escolher, já que o sentido é ela mesma. Escolher ou não, tanto faz, não saímos dela(vida). Então porque cobrar a escolha.
Eu não tenho que decidir nada, ou tenho?
Saber o que eu quero para mim, isso importa tanto assim? Sabendo ou não, continuo vivendo. Não vou morrer por isso.
O problema está exatamente na bosta da consciência disso.
Talvez fosse tão melhor ser um lavrador, analfabeto, e arar a terra fazendo como seu avô fazia, e esquecer que existem os espaços entre cada veio de plantação, o verso.
Falo isso tudo, e nem sei se alguém vai entender o que falo . Mas que importa, ninguém vai ler mesmo,nem eu.
Esse monte de gente que fala e escreve: filósofos, estudiosos, teóricos, críticos falam pra burro e quem os lê, seus pares, às vezes. E falam, podem falar. E o povo na Universidade fica de queixo caído, aplaude. Tem coisa que não entendemos nada. São piores do que eu na minha crise de existência quando escrevo, mas tão lá, se conquistam um nome, ficam tempos, até o modismo passar.
Não é que eu queira isso, pois acho tudo que escrevo um grande bosta, Porque fui adestrada para isso. Bons são eles, bom é ele. Mas o que ele diz de diferente dos outros.
No fundo, todos dizemos o que pensamos, alguns mais, outros menos, dentro da ordem do discurso. E quem tá na ordem presta, quem não ta, não presta, sofre preconceito, rejeição. Quem faz o tipo, é bom, quem não faz, não presta.
Sempre são esses modelos pré-configurados pela época. Entretanto, tem alguns tipos que querem ser o oposto do modelo, ora, se é o oposto de algo continua estando dentro do discurso.
Mas, e a porra do sentido de tudo isso? Não tem. Vida é vida, aqui ou na Indochina , hoje cada vez mais igual em todos os lugares. Com os mesmos acessos. Alguém no Himalaia, pode estar agora escrevendo o mesmo que eu, sentido o mesmo que eu, - que tudo não passa de nada.
Que vida não tem nome masculino, que nós somos Sísifos na nossa jornada em busca do que não sabemos. Quando achamos que encontramos algo, ele escorre, se desmaterializa, se fragmenta, desterritorializa de nós, passa ocupar um outro lugar. E temos que começar de novo. E de novo, de novo , de novo.... sempre.
Alguém pode me dizer se isso tem sentido??? Porque não quero procurar durante toda existência.



Ele e o sofá branco
6/7/2009
Depois do gozo sentado no sofá branco, mão no queixo,o homem nu toca seu membro encoberto por uma camisinha cheia de esperma.
Sua cabeça parada, seus olhos fechados saboreiam o desdobramento da intensidade do primeiro gozo. Ao seu lado, no mesmo sofá a mulher o observa, ele desconhece o olhar dela. Sabe que ela está ao lado, mas por um momento dispersivo se esquece.
Ela o fita, ri consigo sem ser observada por ele. Quando ele se dá conta, quando sente, já está na hora de se levantar, percebe que ela o olha e pergunta. Ela diz que o olhava apenas e ri. Ele não sabe o que fazer quando é observado.
Talvez sempre fosse assim. Talvez sinta um desconforto ao ser olhado por outro. Não lhe pertence o prazer do vouyer . Não compactua com o jogo do olhar e ser olhado. Não olha porque não sabe o que pode criar a expectativa do seu olhar e não se deixa ser olhado porque pode ter suas entranhas desvendadas, sem que queira, pelo olhar alheio.
Olhar é jogo, olhar exige cumplicidade. Talvez se excite com alguma revista pornográfica no momento do prazer solitário, mas nesse momento ninguém o vê, nem ele mesmo. Concentra seu foco na sensação e esta certamente não pertence,para ele, ao seu campo do olhar. Olhar o gozo da mulher que toca é impensável . Talvez ocorra, mas por distração e não por desejo ou vontade de olha-la ceder aos seus toques, até porque, é indiferente a ela. Não a toca porque deseja, mas pelo fato de que necessita tocá-la para ser tocado. Por isso não faz questão de ver o corpo convulsionado do prazer dela. Nem mesmo do seu. Sabe que seu membro cresce, enrubesce, enrijece, mas não o olha assim. Talvez se olha-lo, ele diga-lhe alguma coisa, que não quer ouvir, então melhor não olhar. Olha sempre para fora de si porque tem certeza de tudo que quer e jamais questiona suas teses pré-estabelecidas . Não admite mudança, não admite pressão, reclamação ou quereres dos outros. Sua mulher tem que querer o que ele quer, tem que fazer o que ele determina, tem que ter o prazer igual e no mesmo lugar que ele. Se não for assim, ela se condena a vagar no espaço e no tempo em busca de outra forma, que ele não quer dar.
O que ele quer, ela sabe, e faz para agradá-lo, se disponibiliza para servi-lo, serve sempre a ele , se sujeita ao prazer dele, e abdica do seu que depende dele.
Talvez o maior prazer dele seja, não o prazer que ela lhe dá, mas o prazer que ele sente em negar a ela o que ela quer.
Pânico e paixão

Hora de acordar, a criança dorme. Saiu a pouco de dentro do útero e o dia todo só dorme com pequenas pausas para comer e deixar ao mundo os detritos da ação que executa. Só isso. Ao lado dela todo um exército de aparatos e preocupações, toda uma gama de emoções e sentimentos. Dores de perda e visões do futuro, medos e ilusões. Tudo parece tão bruto quando se olha o ser indefeso e sereno que ela é.
Horas e horas a dormir, a mergulhar no mundo de sonhos indecifráveis para ela e para todos. Na face muitas vezes aparece um riso, riso de anjo.
Entretanto, tem horas que o anjo se transforma, fica vermelho, abre a boca, berra,berra, berra alto. Em torno se estabelece o desespero, o medo interminável que aquele som provoca, a dor. Tudo é feito para ela parar de berrar e ela as vezes não pára. O berro a noite parece pior. Com a escuridão, com silêncio da rua, parece que o berro se torna mais forte . Ao redor daquele ser, o sono de quem cuida tem vontade de jogar pela janela, pensa , mas depois se tortura porque pensou o que pensou. Se pune amando mais, amando incondicionalmente, apaixonadamente. Jamais se arrepende, apenas quando o vermelho do berro irrompe furioso a marcar tempo espaço e o desespero. Mas no momento seguinte todo pavor se desconstrói e com um sono calmo e um sorriso de anjo a criança dorme.
Rio de Janeiro,15/2/2009

sábado, 27 de junho de 2009

novos e velhos escritos



Sentimentos desterritorializados


Na academia se estuda muito o conceito de desterritorialização, não me lembro bem se foi Deleuze , Guatari, Camus ou outro que começou a falar disso e também não me lembro onde foi. Fato é que parece que está todo mundo desterritorializado, coisa da pós-modernidade? Talvez. Uso o termo com uma acepção vulgar, de quem nunca passou por qualquer autor.
Existe uma desterritorialização dos sentimentos. Sentimentos fora do seu território original,criando novos tempos e espaços, novos sentidos e dimensões. Tem gente dando muita importância ao que não tem valor na existência e deixando passar a vida de jeito sem sentido. Tudo bem que a história do valor é pessoal, subjetiva.
O fato é que não temos como saber o que tem valor na vida e o que não tem. Mas há quem ache que saiba, acha que o seu próprio valor é o único que interessa, que todos deveriam tê-lo como modelo.
Voltando à academia é isso que parece acontecer. As pessoas se colocam numa redoma de tal maneira inviolável que nem se deixam penetrar pelas coisas da própria vida. Muitos se tornam verdadeiros sóciofóbicos , vivendo uma vida reclusa, longe de tudo e de todos, apenas no mundo das idéias e “se achando”.
Não sei o que deveria ser, sei que isso acontece, que já foi dramatizado pela arte inúmeras vezes e continua sendo. A dicotomia entre o viver e o escrever sobre a vida.
Uma vez eu disse que viver era o que fazíamos quando não estávamos escrevendo sobre a vida, ou sobre o que outros fazem da sua vida.
Vivermos de verdade, estarmos no mundo, sujeito às suas intempéries, não termos o famoso tempo para pensar sobre. Quando nos retiramos do dia-a-dia, quando nos enclausuramos na imagem, já clichê, da torre de marfim, aí sim, pensamos e traduzimos as mazelas do mundo. As que olhamos, e as que queremos olhar, porque não olhamos todas.
Nosso olhar é algo direcionado, sempre, vemos apenas o que queremos, para nos defender e proteger.
O homem vive num constante estado de auto-proteção. Já saímos das cavernas, já dominamos o meio ambiente, mas continuamos nos protegendo,todo tempo. Nossa necessidade de criar um escudo de defesa permanece. Sempre existirá um inimigo invisível e por isso inexistente, que nos ameaça constantemente. Seja ele o sistema, o patrão, o amor, a sociedade, o tempo, os animais. Tudo é ameaça.
Então lançamos toda nossa energia nesse mecanismo de auto-proteção, para não nos sentirmos violáveis . Queremos ser invioláveis.O medo é o maior dos sentimentos. É o que leva ao estado de estresse e que vai permitir criar a proteção, estar preparado,sempre a espreita.
E se por um momento perdemos essa concentração, aí lá se vai tudo, parece que seremos condenados ao limbo.
E nesse processo ficamos defensivos. Lembro–me do professor do filme do Visconte, Violência e paixão. O sempre defendido professor que num momento perto da morte se depara com uma desarrumação de sua vida, que lhe custará a quebra de seu mecanismo de defesa. A vida supera as expectativas, ela corrompe o estabelecido, ela desordena o que se supunha ordenado, ela bagunça tudo, ela se bagunça, para quebrar o que ficou cristalizado pelo tempo.
Mas do que adianta a bagunça se não conseguirmos dar a ela o seu lugar. Depois da bagunça constituída voltamos correndo aos antigos modelos e queremos logo restabelecer a ordem, a regra que foi violada. (setembro 2008)
Olhares bifurcados

Desde que li uma conto do Borges, que tinha a palavra bifurcação no título fiquei com ela na cabeça, sabia que algum dia , alguma hora escreveria algo em que tivesse a possibilidade de usa-la . Lembro que na época cheguei a escrever uma carta de amor para alguém que tinha comigo encontrado um jardim, mas cujo caminho tinha sido, por falta de coragem, bifurcado, e só retomado anos depois. Como já previa meu caro Álvaro de Campos tal carta era ridícula , tinha que ser, não caberia a ela outra qualidade a não o fato de ser ridícula, como foi ridículo o arrependimento de tê-la entregue em mãos, um minuto depois. Mas passou.
A bifurcação hoje é outra, e é admirável a separação que as pessoas fazem de certos compartimentos de vida. Eu separo tudo, meu cérebro fragmenta as situações, no que tange ao que chamo de resto. Mas já no compartimento emoções, sexo, amor, prazer, aí não há compartimentação, que dirá bifurcação.
Se a coisa acontece mais de uma vez, não tem jeito, já entrei no caminho tortuoso. Já imagino o que vai acontecer. Não me iludo. Quando se for, quando o caminho enfim , mais uma vez, se bifurcar, vai doer . Vou chorar. Vou sentir a falta, mesmo já sabendo que o contrato não previa cláusulas emocionais. Que o trato era de desapego e não envolvimento.
Acontece que saber as regras não nos priva de viola-las. Eu sei, mas nunca respeitei. Eu minto. Digo que respeito,mas não respeito. Eu que sempre me considerei verdadeira, hoje me esparramo de rir de mim mesma e mas ainda dele, que crê que eu respeito todas as regras. Não que o que eu diga seja mentira, não é. É a verdade que eu queria acreditar que fosse. A verdade que eu queria sentir.
A diferença entre sentir e querer sentir. Querer sentir o que deveria ser. Quero sentir que não me faz falta, mas faz. Quero sentir que não sinto saudade, mas sinto. Quero não pensar sempre, mas penso.Quero não pensar, que queria que ele pensasse.
Somos malucos, estranhos, temperamentais, temos idéias bifurcadas e vivemos o tempo todo defendendo os nossos discursos mentirosos de nós mesmos. (setembro 2008)



Ser Estranho

Eu não sou estranho.Tem muitas pessoas mais estranhas do que eu. Comparativamente, é natural que sempre achemos alguém que nos seja mais absurdo que nós mesmos.
Meu amigo de personalidade auto-destrutiva é muito mais estranho do que eu.
Aquela mulher que pinta os cabeços de azul é muito mais estranha que as outras que pintam o cabelo de castanho.
Essa relação de casal não é estranha, àquela do casal do apartamento ao lado é muito mais estranha.
Suas roupas são estranhas. Talvez porque sejam da estação passada ou porque não são minhas.
As idéias me parecem estranhas, os discursos me parecem estranhos, mas deve ser porque não são meus, peguei emprestado de alguns autores que li.




Reflexões


Pensar que depois que nascemos caminhamos necessariamente para a morte, não é nada novo. Novo talvez seja nesse contexto o fato de não conseguir dar conta de saber das
idéias daqueles que todos falam.
Se falam porque conhecem de verdade, muito bem, o problema é quando falam achando que sabem algo que não sabem.
A contradição largamente difundida entre o pensar e o viver, entre o escrever e o viver permanece. Quem escreve e cria não precisaria viver intensamente as coisas pois que sua capacidade de criar e observar vai além e ele se permite através dessas duas capacidades, fingir. Fingir tão bem, que chega a pensar que viveu aquilo que jamais viveu, parafraseando Pessoa.
Entretanto, não é tão simples assim. Quando se vive e escreve, a sensação que se tem é que o pensamento nos trai a cada letra que escrevemos. E temos a clareza de que as palavras jamais darão conta de tudo aquilo que sentimos. Talvez por isso quem viva intensamente não consiga escrever. E quem está um pouco mais paralisado é que dá conta desse universo.
O distanciamento para a escritura é fundamento do ato. Caso contrário tudo fica com um tom assim meio verde pálido, que não esboça nada de interessante.
Pode ser a maior besteira,mas tem formas de discurso que fazem com que essa besteira se torne algo interessante aos olhos do leitor. Isso sem contar o fato de que o leitor, hoje, quer ouvir ou ler o que ele já conhece mais ou menos.
Talvez seja esse o segredo do sucesso de alguns por aí.
Aí o escritor/codificador seja lá como se chame. Senta na sua cadeira e olha sua estante grande ou pequena,sempre um universo misterioso a ser desvendado, isso parece lugar comum. Um lugar a ser perscrutado, independentemente da estante de livros. Paul Auster fala em seu livro de uma estante de catálogos telefônicos. Parece besta, mas com imaginação rica, muito rica, o escritor senta em frente a essa estante e cria uma história para cada nome que aparece ao léu.
Mas desemboquei nesse assunto porque olhando a estante me dei conta de que não tive toda liberdade para ler o que quisesse ler.



Constatação

Sentada a frente da televisão vejo programas e corrijo provas. Que tédio a tarefa de corrigir aquilo que tentamos minimamente passar para quem não quer receber.
O programa interessa mais que as provas, talvez assim eu seja mais boazinha e esqueça que só estou ali intermediando o que meu padrão quer vender e as pessoas querem comprar, eu ali, de bucha. Certas horas a bucha fica completamente inchada, aí tem que espremer, espremer no ralo para sair todo ar, ou toda água e recomeçar.
Atiramos para todos os lados, e quem nos atirará a primeira pedra? precisamos sobreviver. Fácil é a posição de quem desconhece essa realidade e a condena, como se fosse fácil sobreviver em lugares privados como é em lugares públicos. Na verdade, no privado está todo o público, que não sabe porque está ali, que tem a ilusão de que vai alçar voo, talvez ,para quase o mesmo lugar, E nós ali de bucha. O canhão é imenso, poderoso, nos impõe metas, obrigações ardilosas, chatas, inúteis, e a bucha inchando.Lembro-me da máquina kafkiana da “Colônia penal”, parece que estamos nela, e cada dia nos é escrita uma nova sentença, que só complica nossa vida e diminui o que ganhamos. Até a hora de subsumirmos sem mais nenhuma possibilidade de reversão.
Nesse dia o que será que acontecerá? Sempre nos perguntamos, sempre tentamos olhar o papiro que contém a sentença mortal, mas não encontramos, só encontramos a que vai lentamente matando, pequenos escritos, pequenas picadas, para o sangue ir escorrendo aos poucos, causando dor, secando por dentro até o fim, que não é em 12 horas, mas em 30 anos. (Junho 2009)


domingo, 7 de junho de 2009

Reflexos


Entre o amor e a paixão

Demorei muito para perceber a diferença entre amar, amor e paixão. Na idade que tenho sempre busquei irremediavelmente a paixão. Aquele amor que me fizesse sair do chão, aquela coisa hollywodiana que estamos acostumados a ver em filme e novelas.
Entretanto, depois de um tempo vivendo isso que chamamos paixão, entrega profunda, adrenalina,medo de perder e mais um monte de coisas, tudo passa, talvez Cazuza,cantando Melodia tenha razão quando diz, que “coincidência é o amor”. Pois é, chego a conclusão de todos que falavam da diferença e estavam certos.
A paixão é boa mas não é plena, ela cega e nos faz refém, e isso nem sempre é bom, talvez por isso, está cientificamente comprovado, dura pouco. O tempo para que haja a procriação.
A sedução do começo de quando queremos algo que nos parece inatingível.
Entretanto, existem pessoas que não sabem viver o que vem depois da paixão, do estar apaixonado. E sempre quando o primeiro momento acaba elas acham que nada mais existe, e vão em busca de uma nova paixão.
Essas pessoas jamais amam de verdade, talvez nunca tenham amado e se deixado amar.
Elas vivem numa corda bamba, no fio da navalha . Elas acham que só existe amor se houver paixão, e isso não é verdade.
Não ficamos a vida toda apaixonados, é ilusão achar isso.
O amor é algo completamente diferente.
Eu achava que ambos tinham que caminhar juntos, porém agora vejo que é quase impossível essa caminhada concomitante durante muito tempo.
Durante muito tempo sofri sem saber o que fazer quando minhas relações chegavam àquele ponto em que não se tem mais paixão, mas se tem outras coisas, que eu não sabia o que eram.
Para identificar essas outras coisas é que era difícil ,já que vivemos numa sociedade onde as relações são tão consumíveis como um sorvete.
Nem sempre nos satisfazemos e quando a paixão , o momento da sedução primeira acaba, nos vemos sugestionados a dar um basta em tudo. Até porque tudo parece conspirar para isso.

Então ,quando aquela sensação me invadiu parece que olhei toda a minha vida com um outro foco. Descobri o quanto do meu tempo foi voltado para entender algo que não era da essência do amor, que eu parecia sentir pelos homens que tive.
Pensando refiz minha trajetória .Me sinto mais madura nessa fase da vida , sou uma balzaquiana, já casei, já separei, já tive muitos namorados, muitos amores e desilusões.
Esperava do amor exatamente aquilo que aprendemos nos filmes e novelas, esperava a paixão, estar sempre apaixonada e ter alguém apaixonado por mim era meu eterno ideal. Todas as relações começavam assim. Sempre da mesma maneira. Primeiro eu não querendo, depois eu me apaixonando, depois a coisa ficando morna e no fim ao me ver sozinha, eu de novo apaixonada pelo simples fato de ter terminado. Por causa do vazio que isso me causava. Ainda não entendi muito bem por que os términos sempre me levaram a uma dor profunda, e sempre me achava apaixonada pelo indivíduo, depois que ele se ia.
Tenho consciência disso hoje, por ser algo que não quero passar mais,busquei entender e entendi como acontece, mas não entendi o porque acontece, isso deixo para Freud ou qualquer outro desses que desvendam o inconsciente humano. Talvez um sentimento de rejeição ,não sei...
Mas não queria falar do que não entendi. Quero falar daquilo que me pareceu ser desvendado pela pessoa mais improvável. Não que a pessoa tenha desvendado para si, que ela tivesse entendido isso, pois acho que não entendeu, mas a sua fala fez com que eu entendesse, no meu íntimo, o que é o amor e o que é a paixão, a diferença dessas relações e como elas podem interferi na nossa felicidade e vida.
Vários autores dizem que a pessoa que amamos é nosso reflexo, não entendi muito bem isso, mas sei que admiramos no outro o que eles tem de nós mesmos , e isso me fez ver como fui a vida inteira e como acho que não sou mais.
Em uma relação o parceiro me disse que não era apaixonado por mim. Num primeiro momento isso me pareceu doloroso e alvo de uma provável suspensão do que vivíamos , entretanto, depois, pensando sobre o assunto, consegui ver uma outra face nessa história e que se relacionava a mim mesmo.
Coloquei-me numa outra situação e vi que pouco tempo da vida passamos apaixonados, que é algo tão esporádico, que dura tão pouco e é tão efervescente e ao mesmo tempo tão esquisito, não existe relação que viva uma paixão eterna, várias são as formas em que o amor se realiza sem ser apenas pelo campo da paixão.
Duas diferenças são básicas nesse sentido. Quando queremos conquistar alguém ou quando alguém nos conquista vivemos as vezes meses investidos daquele sentimento turbulento, porém quando essa turbulência acaba temos novas coisas para nos despertar na relação.
Se estamos dispostos a amar de verdade temos de ter consciência disso. O amor é algo construído quando queremos, a paixão é algo que nos arrebata mas que nos causa um vazio. O amor pode ter momentos de paixão, mas a paixão independe do amor.
A maturidade nos remete para o amor , remete a valores desconhecidos das coisas que vemos e temos e vivemos. Vemos nas pessoas coisas que na paixão éramos cegos para ver, e que no amor vemos e aceitamos, aí é que está nossa disponibilidade para aceitar o outro como ele é.
Hoje em dia, dado a fugacidade das coisas, ao consumismo, tendemos a ter nas relações o reflexo do consumo, não satisfez troca, sai em busca de outro, entretanto, não nos damos chances de construir e descobrir o amor com as pessoas.
Vamos sempre pulando de galho em galho, relações paralelas, que no fundo só nos deixam mais vazios . Isso é o que vejo em homens e mulheres. Não sou assim, por isso me acho anormal, diferente da maioria.
Não tenho medo do amor, pois isso tenho para dar e vender, mas tenho medo dos tipos de relações, talvez por já ter passado por algumas que eu não tenha entendido.
Ver meu parceiro hoje, me fez me ver, já estive apaixonada por ele , hoje acho que não mais ,porém não acho que isso seja um problema. O que quero é conhece-lo mais, é curtir estar com ele, é construir algo, dividir. Enfim, tudo que é bom, sem receio e com calma. Sei lá, parece que os valores mudaram de foco.
O que ontem, antes, no passado eu queria, não quero mais. Não é mais a paixão que me satisfaz, é outra coisa, somente agora já tendo passado por ela é que consigo ver isso, e me sinto feliz.
Me sinto plena por ter descoberto essa diferença. E ele me fez ver esse fato. Sem querer ele me descortinou algo que há muito me fazia sofrer, acho que toda a minha vida, algo que me fazia suspeitar das minhas relações, que me colocava em cheque, algo que fazia com que eu questionasse e achasse que me davam menos do que eu merecia. Toda a expectativa que eu colocava sobre os parceiros que me envolvia.
Acho que ele não sabe dessa diferença, que me fez ver, busca incessantemente a paixão, as bocas e corpos diversos, muitos sem muito significado. Ele, pelo que vejo, não sabe ainda seu caminho, não sabe que o caminho é o importante, que a sua construção é que importa, seus tijolos e a massa com que eles serão colados. Ele não vê isso ainda, talvez seja ainda imaturo, talvez não tenha vivido o suficiente, ou não se tenha permitido levantar as paredes. Vive a catar tijolos sem buscar massa para cola-los, um sobre o outro. Vive buscando a paixão.
Catando um tijolo aqui, outro acolá, eles são largados no tempo sem nada, e isso faz com que os tijolos apodreçam, e cada vez ele tem que catar novos tijolos para um dia preencher sua parede.
Mas ele não sabe que tem que alicerçar as paredes antes de colocar o tijolo e a massa, o alicerce é o amor, a convivência, não é a paixão. A paixão serve para uma busca preliminar e não para levantar as paredes.
Acho com essa descoberta entendo melhor o que tem se passado na cabeça da grande maioria da pessoas.
Todos querem o imediatismo e nada que dê trabalho ou preocupação, nada que precise regar, nada que implique responsabilidade.
Aí surge uma outra coisa que também é comum nos nossos dias, por não se permitir amar, as pessoas também não sabem ser amadas.
Mas o que é saber ser amado? Essa é uma questão que ainda não está clara. Penso que passa pelo fato de a pessoa se sentir culpada porque a outra o ama . Como se dependesse dela o amor do outro. Aí as pessoas fazem coisas para poder afastar de si aquele ser que a ama.
É como se ela jogasse contra ela mesma.
Não existe quem não se sinta bem em ser amado, mas muitos relutam.
Como saber da cabeça do ser humano. Cada dia pior, cada dia querendo mais, e estando mais só.
Me basta escrever para deixar alguém ler e talvez se identificar.
Rio de Janeiro, 5/1/2006


Novos Contos da cidade

No Castelinho da Garibaldi


Passava das 18 horas quando o bonde que fazia a direção Usina parou em frente ao castelinho da Garibaldi e de dentro saiu um dama antiga. Vestido preto discreto comprido até os joelhos, bolsa pendurada nos ombros, óculos também escuros, nos pés um Chanel preto de salto alto com meias fumê..
Parecia assustada, mas isso não a intimidava no andar. Saltou, esperou o bonde passar, e entrou no castelinho sem nem mesmo tocar a campainha.
Será que ela morava lá? Há muito ninguém mais entrava naquele lugar, quanto mais a essa hora do dia, cinco da tarde. O local parecia abandonado, sem luzes a noite, sem jardins arrumados, sem cores de castelo, diziam os do local que ali tinha ocorrido uma tragédia, as pessoas sempre ficavam a olhar um prédio tão lindo a ser destruído pelo tempo.
Mas naquele dia, as 5 da tarde, algo havia acontecido. Eu estava parado, na esquina da rua quando aquela mulher misteriosa saltou do bonde.
Aquilo atiçou minha curiosidade e espanto. Fiquei a imaginar, o que ela faria ali dentro, se teria alguém que nunca saía, um ser decrépito, misterioso, que tinha sobrevivido ao trágico infortúnio de sua existência .
A hora foi passando e eu não conseguia sair daquele lugar, aquela esquina onde me encontrava, minha mente se enchia com as histórias que eu criava e imaginava estarem acontecendo lá dentro.Estava no meu íntimo esperando que ela saísse para que eu adivinhasse pelos seus passos e seus olhos o que teria acontecido .
Uma hora, duas horas , três horas, quando deu 8 da noite de novo o portão se abriu, ela saiu como entrou, silenciosamente, na sua face não tinha lugar para ansiedade, sentia de longe que estava mais tranqüila do que quando entrou,as 5 horas.
Ela atravessou a rua, eu de longe a olhava, parou no ponto e logo o bonde das 8 chegou. Ela tomou o bonde, sentou-se na terceira fileira, cruzou as pernas como quem se acomoda para o tempo passar, os óculos escuros não estavam mas no seu rosto, o apito soou. O bonde saiu. E eu ali embevecido, sem saber quem era, se era, acordei, já era hora do jantar.

16/05/2009.


Cotidiano de uma tragédia

Naquele dia bonde atrasou. A fila grande dobrava a esquina e criava ansiedade nos que chegavam. Seis da tarde, barulho de rush, todos os ônibus lotados,inferno atravessar a cidade a essa hora. E fila aumentava cada minuto e nada do bonde.
De repente a chuva começa, pessoas espremiam-se sob uma marquise descascada , onde se via o ferro da laje . A chuva fica mais forte e num piscar de olhos a multidão se desespera. Pessoas correndo para todos os lados, mulheres gritando, crianças berrando, homens atordoados sem saber o que fazer. A sirene dos bombeiros soa forte, homens de macacão afastam as pessoas e começam a levantar os pedaços de laje.
A frente uma criança chora, a mãe está embaixo e ela sozinha não tem para quem correr. A marquise tinha caído. Não tinha mais o que fazer. Os bombeiros acodem como podem, a ambulância chega,a mulher é retirada dos escombros e a criança corre em sua direção. Mãe e filha se abraçam, a vida parece que ressurge.

Cidade sem memória.


Passava das 5 horas da tarde de quinta feira quando enfim a noticia da morte havia chegado à pequena cidade. O calor era intenso, mês de janeiro, e o verão castigava o solo de pedra e seus habitantes bronzeados. Todos na localidade conheciam aquela saga vivida por um homem e uma mulher em busca da vida e do romance. Porém, não era mais uma história de amor, ligada dramas shakespearianos da proibição, mas uma história de vida de rejeições e sentimentos perturbados.
Eram os personagens, indivíduos comuns, que buscavam apenas sobreviver, e registravam onde passavam seus descontentamentos e seus questionamentos, suas agonias, ansiedades e dores. Porém, tudo chegara ao fim, ou ao começo, já que não ninguém, sabe bem de onde vem nem para onde vai.
Começou numa hora improvável, inúmeras pessoas num mesmo local, com objetivos idênticos, matar o calor que sobre suas cabeças imperava. Foi assim que se conheceram. Ninguém dizia que aquela mulher que acabara de se encarregar de seu amor poderia estar ali selando sua passagem para um outro espaço e uma outra forma de ver a vida. Ele, por sua vez, jamais suporia ter em sua existência algo tão desafiador, nem mesmo olhava-a nos olhos pois tinha receio do reconhecimento trazer-lhe lembranças fugidias que preferia esquecer.
Mesmo assim, o encontro se deu, depois do primeiro, um novo encontro, mais outro e outro, num total de 51 vezes. Toda a coisa parecia confluir, eram conversas, realizações, medos, angústias e planos que os envolviam . Porém algo de estranho estava no ar. Algo como um medo inerente ao próprio ser, se encarregava de não deixa-los viver. Não se permitiam questionar o que era aquilo, mas o incômodo permanecia. Vinham de vivências outras e aquele momento talvez ainda não fosse o certo, mas como tudo, foi se arrastando. Em meio às 51 vezes a intensidade era enorme, buscavam em prazeres mútuos compensar aquilo que não sabiam existir. Aos poucos a necessidade foi surgindo, a dificuldade primeira em abrir a flor foi, depois de um tempo, tida como lenda e em inúmeras paisagens flores e galhos comungaram de grande êxtase nos jardins, que no principio pareciam não ter força suficiente para fazer brotar orquídeas e tinhorões.
O tempo foi passando até que se soube por toda cidade que uma febre estava por chegar com os ventos vindo de uma quarentena, em lugarejo visinho.
Os habitantes se preocuparam, não sabiam os efeitos do mal, e desconheciam os sintomas, além do mais, o preconceito contra os doentes era algo arraigado sem suas mentes.
Sem pedir licença o mal foi se chegando e sendo transmitido, de pessoa para pessoa, e os sintomas foram se agravando. Mas era um mal tão sorrateiro que não deixava que os atacados se apercebessem dos seus estragos, primeiro ele causava uma enorme ansiedade, não se sabia de que, depois uma tristeza profunda, seguida de uma inércia parecida com a trazida pelo calor, seguindo nos sintomas, aparecia o que se chamava de ausência, homens, mulheres e crianças não sabiam,simplesmente não sabiam, seja lá o que fosse, qualquer pergunta os atirava ao poço, não conseguiam saber nada, queixavam-se de tudo e tendiam a dizer que nada sentiam e a fugir de quem os colocasse a prova para ver se tinham o mal.E por fim, o auge dos sintomas, o não reconhecimento de si e do que sentiam.
A febre foi de grande estrago na cidade, isso porque, ao serem acometidos os indivíduos não se reconheciam e julgavam que não eram o que eram, não sentiam o que sentiam, uma enorme confusão entre o ser e o não ser, o gostar e o não gostar, o ter e o não ter, ninguém mais se entendia, filhos não conheciam mais os pais, mães não sabiam quem eram seus filhos, nem o que sentiam por eles, casais não se viam mais como tal, pois que o mal camuflava seus sentimentos e os confundia diante das reações vitais.
Ninguém mais levava vida normal, os trabalhos eram burlados, os estudos largados e até mesmo as fornicações deixaram de existir na cidade pois os sintomas deixados pelo mal, inibia os instintos mais animais dos seres humanos, o sexo e a procriação.
Em meio a essa catástrofe aquele homem e aquela mulher não ficariam imunes, marcados como todo o resto da cidade, também eles se desconheceram quando o mal se instalou. Vinham de uma série de encontros, mas quando a febre chegou, no momento seguinte eles não mais sentiam seus instintos básicos e a confusão que se dava no resto, também com eles se deu, não sabiam mais quem eram, nem o que os envolvia, não sabiam mais nada. Dessa forma, os encontros cessaram com a sensação de terem sidos interrompidos numa hora que não era, e por uma causa que não era deles, mas de fora.
O mal progrediu, afetando mais gente do que as autoridades supunham e deixando a cidade perdida , desmemoriada .

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Rio, 6/11/2008

O Já-morreu

Seus pés são gelados o tempo todo, faça calor ou frio,a extremidade parece saída do freezer, mas isso não se pode dizer que seja algo só fisiológico. Seu pé é a materialização de sua própria emoção e sentimentos, frios, cruéis, conservadores, o próprio gelo cristalizado .
Sua vida se resume a investigação das coisas e não de si, do pensamento de outros sobre as coisas. Busca a terra do fogo. Pelo nome, o inverso de sua frieza consciente.
Pensa que controla o mundo, quer controlar tudo a sua volta, as pessoas tenta encaixar nas formas que existem em sua mente, os aparelhos, as necessidades e a própria morte ja foram organizados. Já marcou data, hora, local para ela acontecer.
Não permite intromissões nos domínios intelectuais, de desejo, de convivência. Se alguém se aproxima um pouco mais dele, o contato de pele lhe dá choque e a quentura do outro pode derreter seu gelo,então, ele não permite.
Seu discurso é sempre o mesmo. Se subestima na capacidade de dar, porque está determinado a não dar nada, nunca, a mais ninguém, exceto os filhos, mas mesmo para esses não se entrega por inteiro.
Quer habitar um lugar inóspito, longe de tudo e de todos, onde o contato humano, que ele julga terminado e ultrapassado não existirá. Seria ele não com ele mesmo, porque ele não se enfrenta, ele com seus livros e idéias. Ele mesmo não se conhece. Falta-lhe a vontade de experimentar inerente ao estar vivo,nada pode experimentar. E sem experimentar, não se dá conta que vai morrendo e definhando sua carne a cada dia.




Sofá branco

Deito no pequeno sofá branco de couro. Nele me encolho como um feto em busca de proteção, de uma fuga no sono. A mente trabalha para digerir as sensações e amansar os questionamentos. Tudo é difícil quando se mudam padrões. Questiono se tenho mesmo e porque tenho que muda-los . Não quero a vida toda sofrer por causa deles, por isso é necessário mudar para melhorar. Por isso tenho vida. Se não fosse para mudar poderia morrer. Idéias cristalizadas só a dos mortos que não pensam mais, sentimentos cristalizados também só os deles, se os tem.
Durmo um sono conflitado, relâmpagos de sonhos em torpores de dispersão.Acordo, durmo, durmo, acordo sem conseguir levantar. Os mesmos pensamentos, as mesmas pessoas, sonho dormindo,sonho acordado, difícil processo de elaboração, des-complexificação , desilusão .

sábado, 29 de novembro de 2008


CARTA DO LEITOR – 27/11/08
Tenho um bibliófago em minha vida, e não sei que fazer com ele?Essa era a pergunta de Maria quando escreveu a carta para a coluna do psicólogo no jornal. Na carta ela perguntava e contava a história.
Tinha conhecido um homem há muitos anos, e se reencontraram agora. Ele vivia num pequeno apartamento cheio de livros que considerava seus maiores amigos. Ele dizia pouco sair, dizia pouco querer, não falava sobre passado, e buscava sempre nos livros a razão para sua existência. Queria ir para a terra do nunca, ele e alguns livros, nessa terra ficaria livre de tudo, de todas as cobranças, de todas as pessoas, de todas as obrigações. Pois tudo isso o perturbava.Queria dela apenas o recorte, pois isso os livros não davam.
Maria não entendia como tudo o perturbava se ele não tinha tudo aquilo que dizia.
Será que os livros o ameaçavam? Cobravam-no, davam-lhe obrigações?
Maria começou a pesquisar o caso, procurava nas enciclopédias, na internet, o que seria uma personalidade bibliófaga. Numa de suas pesquisas achou uma definição, - era um tipo descrito por Canetti -"aquele que lê tudo, sem distinção, basta que sejam difíceis”, mas não era bem isso. O cara lia, mas não tudo. Ficção por exemplo, ela não sabia se ele lia, talvez desprezasse o universo inventado, mesmo que fosse maravilhoso.
Lia sobre viagens, isso combinava com a definição de Canetti- “nunca visitou cidade alguma, sem antes ter lido tudo a respeito dela. As cidades se adaptam ao seu conhecimento”. Fazia sentido essa descrição, mas não só em relação às cidades, mas em relação também às pessoas . Ele julgava que pelo que já tinha lido podia adivinhar e saber quais eram as expectativas de todos, inclusive a dela, Maria. Sem dúvida, se enganava muito, porque achava que sabia o que não sabia.
Maria continuava sua pesquisa, e nos relacionamentos? Eles tinham uma relação, se conheciam, se encontravam, mas essa nomenclatura não convinha para ele. Ela buscou mais uma vez a definição - o bibliófago jamais fica só, ele precisa de alguém que o ouça, “ seu mundo constitui-se de livros e ouvintes”, “entrementes, às vezes se casou, outras acaba de divorciar-se novamente. Suas mulheres desaparecem”. “Ele admira homens que o estimulem a superá-los”.
Maria ficou na dúvida, seria ele iludido quanto a sua opção. Buscou então livros que falassem sobre opções sexuais e ainda assim não teve resposta. Foi quando resolveu escrever a carta ao psicólogo.
O psicólogo achando o caso muito complexo mandou Maria esquecer as definições. Mas seguiu ainda o manual do Canetti, numa última tentativa de ajudar, mandou Maria escrever cartas ao bibliófago, solicitando informações. Se for um bibliófago comum, com as cartas freqüentes o homem cada vez mais “estará a mercê dela(Maria) e desejará dispor constantemente de suas consultas.”
Maria diante da resposta não tinha mais o que fazer a não ser escrever...e recortar. Sem tempo, sem nome, sem nada...



Caldeirão - 27/11/08


Tem dia que é assim um caldeirão pegando fogo. A comida dentro ferve, ferve muito e não se consegue deixar tampado. Tem que destampar para que a fervura consuma o caldo e ele não derrame mais. Mas antes sempre derrama, suja, antes de engrossar.
Tenho medo desse caldo antes dele derramar, ele pode levar aonde nem sempre quero ir.
Sua espessura dita minha viagem, meu comportamento e sua fervura me consome, vou secando, secando, extraindo toda água que sobra. Por que tanto ferver? Por que tanto pensar ?. Inúmeras configurações de mim e dos outros. Cada hora uma nova imagem, um nova dosagem entra em minha veia me corroendo, um novo metro cúbico dosado nem sei porque, ou por quem. Sei que é meu isso, sei que cada etapa isso vai acontecer. E cada dia mais e mais e mais, até eu não suportar.
O dia em que não suportar, escrevo. Não dá para falar, parece a falta de algum conteúdo, alguma substância, por que não é assim sempre, inquietação.
Julgo ser falta de endorfina. Por isso meu vício em ter que tomar doses de endorfina, toda semana.
O Belo- 26/11/2008

Era belo eu bem sabia, olhos claros e cabelos também claros, corpo de menino, baixinho ou altura normal? Talvez um pouco abaixo da média. Já o conhecia fazia tempo, acho que uns 3 anos. O conheci em outro lugar. Sempre que passava por aquela rua lembrava que ele morava ali, mas nunca durante anos o encontrei.
Entretanto, sempre alimentava essa vontade, pensava em como seria encontrar um pessoa assim, significativa, depois de tempos.
Descia então para o centro da cidade quando o encontrei.Vinha caminhando como eu, e logo nos deparamos um com o outro, eu ia ele vinha. Como sempre aconteceu em nossa vida. Tínhamos desde sempre caminhos invertidos. Ao menos assim me pareceu depois desses anos. Idéias conflituosas diante da vida. Ele achava que eu achava uma coisa que não achava, nem dá para entender. Mas nos dávamos bem. Ele na sua fantasia de homem livre e libertino e eu na minha, de ter de colocar alguém em alguma lacuna de minha existência. Alguém no vazio mental que eu possuía.
Durante quase um ano a vida foi assim preenchida, não sabia, e por não saber, o que julgava que sabia, me desfiz .Como era de se esperar, depois que me desfiz percebi o que fiz. Tarde demais. Não poderia mais. E o tempo passou e passou, e como sempre ele também . Hoje, quando o encontrei, vi que passou, me senti gigante diante daquele homenzinho que eu tinha achado tão grande ontem. E olha que eu nem estava de salto.



Amigos -26/11/08

Amigo é sempre bom. Nos perdemos em conversas e deles podemos escutar quase tudo. Tem amigo psicólogo, administrador, músico, professor,terapeuta corporal, amigo que ama desesperado e que nos faz rir, amigo que quer nos amar e temos que fugir, amigos que são passionais. Que não nos tratem mal, porque os amigos respondem por nós, tem amigos sexuais e amigos castos, amigos de amigos, amigos de nós mesmos..
Mas também tem aqueles que não conseguem escutar sem falar, que tem sempre uma maneira de se intrometer, a sua luz, quando deviam apenas escutar.
Eles nos ajudam a pensar e dividem conosco nossos piores e melhores momentos.
Amigos homens e amigas mulheres. Cada fase da vida temos uns. Ás vezes mais sinceros, as vezes só de copo, outras só de farra, ou só de passeio.
Precisamos deles . Quando a dor nos envolve eles nos amparam, e sempre tem algo que dizer, mesmo que nós nem escutemos.
Meus amigos são assim, pau para toda obra. Uns mais íntimos, outros mais superficiais, uns mais egoístas, outros todo amor. O amigo da cama, que não quer ser amigo, o amigo da sala, que só quer falar de si, o amigo que te vê como ele, quando você não é ele, o amigo que acha que te conhece mais que você mesmo e quer que você aja como ele agiria. Ai amigos. Que seria de mim sem vocês.


O escritor -27/11/08

Alguém já disse, não sei onde, que escrever era um ato de devoção. Eu concordo. Todos que querem escrever tem uma pulsão absurda para o ato, mas precisam também de uma devoção e uma disciplina atroz.
Escritores passam dia inteiro sentados escrevendo, criando histórias, criando vida. Brincam de criadores, de Deus? Não sei, sei que criam. E aí é indistinto o que se cria, se é poesia, se é texto crítico, se é vida própria, se é vida de outro, o fato é que essas pessoas são contaminadas por um vírus que traz uma necessidade de se expressar de qualquer forma, e fica quase inviabilizada a sua vida se não realiza essa mágica de mexer com as palavras, a fim de dar-lhes um sentido derivado de sua união.
Não é a palavra solta que interessa, é a palavra em conjunto, é a palavra misturada, miscigenada, retorcida, estuprada, retirada de tudo e de todos, a palavra abortada, ou mesmo a palavra parida .
É comum muitos escritores pós-modernos se dedicarem a fazer essa cirurgia do ato de escrever, do movimento e uso das palavras. Mas por que? Talvez porque seja tão difícil se ter consciência do que se escreve, no próprio momento em que se escreve, e seja tão importante para quem escreve tentar traduzir de novo em palavras aquilo que sente.
O que sente? Digo sempre que a literatura é a expressão de um povo, de uma pessoa, para ser mais fiel ao texto. Um povo não escreve romances, histórias que tenham sua visão coletiva sobre a vida . Um povo vive as histórias. E poucos são aqueles que conseguem a partir delas fazer uma síntese, criar algo. Mas é expressão? De quem?
Hoje muita gente escreve, muita mesmo. Abrimos a internet e chove torrencialmente sites com textos de ilustres desconhecidos e conhecidos também. Todos querem falar, mostrar o que falam. Alguns melhores que outros. E num país em que o livro não vira um objeto de consumo primário, começo a pensar sobre a posição dos sites e blogs, dentro desse universo de formação de povo leitor dentro da internet.
Eles lêem mesmo? Segundo uma blogueira, que não gosta de ser assim chamada, porque já se transformou numa escritora convencional, as pessoas não só lêem como comentam o que lêem de forma até mesmo agressiva e isso passou a incomodá-la.
Mas por que ela vai ler os comentários. Fecha para isso. Não dá o email. Mas isso é de cada um.
O fato é que também o comentar passa por viés da necessidade de expressão. Mas acho que esse comentário é falso, porque muitos do que escrevem não assumem o que escrevem. Pasmem!
Não sei como enveredei por esse caminho nesse texto, talvez por estar pensando em meu blog, e se alguém o lê, e como chegam até ele . É isso .

parte de mim

Falei  que estava em processo para minhas amigas. Eu tenho muitas  e quase todas sabem dos meus sofrimentos  , das angústias etc. Sabem das ...