sábado, 27 de junho de 2009

novos e velhos escritos



Sentimentos desterritorializados


Na academia se estuda muito o conceito de desterritorialização, não me lembro bem se foi Deleuze , Guatari, Camus ou outro que começou a falar disso e também não me lembro onde foi. Fato é que parece que está todo mundo desterritorializado, coisa da pós-modernidade? Talvez. Uso o termo com uma acepção vulgar, de quem nunca passou por qualquer autor.
Existe uma desterritorialização dos sentimentos. Sentimentos fora do seu território original,criando novos tempos e espaços, novos sentidos e dimensões. Tem gente dando muita importância ao que não tem valor na existência e deixando passar a vida de jeito sem sentido. Tudo bem que a história do valor é pessoal, subjetiva.
O fato é que não temos como saber o que tem valor na vida e o que não tem. Mas há quem ache que saiba, acha que o seu próprio valor é o único que interessa, que todos deveriam tê-lo como modelo.
Voltando à academia é isso que parece acontecer. As pessoas se colocam numa redoma de tal maneira inviolável que nem se deixam penetrar pelas coisas da própria vida. Muitos se tornam verdadeiros sóciofóbicos , vivendo uma vida reclusa, longe de tudo e de todos, apenas no mundo das idéias e “se achando”.
Não sei o que deveria ser, sei que isso acontece, que já foi dramatizado pela arte inúmeras vezes e continua sendo. A dicotomia entre o viver e o escrever sobre a vida.
Uma vez eu disse que viver era o que fazíamos quando não estávamos escrevendo sobre a vida, ou sobre o que outros fazem da sua vida.
Vivermos de verdade, estarmos no mundo, sujeito às suas intempéries, não termos o famoso tempo para pensar sobre. Quando nos retiramos do dia-a-dia, quando nos enclausuramos na imagem, já clichê, da torre de marfim, aí sim, pensamos e traduzimos as mazelas do mundo. As que olhamos, e as que queremos olhar, porque não olhamos todas.
Nosso olhar é algo direcionado, sempre, vemos apenas o que queremos, para nos defender e proteger.
O homem vive num constante estado de auto-proteção. Já saímos das cavernas, já dominamos o meio ambiente, mas continuamos nos protegendo,todo tempo. Nossa necessidade de criar um escudo de defesa permanece. Sempre existirá um inimigo invisível e por isso inexistente, que nos ameaça constantemente. Seja ele o sistema, o patrão, o amor, a sociedade, o tempo, os animais. Tudo é ameaça.
Então lançamos toda nossa energia nesse mecanismo de auto-proteção, para não nos sentirmos violáveis . Queremos ser invioláveis.O medo é o maior dos sentimentos. É o que leva ao estado de estresse e que vai permitir criar a proteção, estar preparado,sempre a espreita.
E se por um momento perdemos essa concentração, aí lá se vai tudo, parece que seremos condenados ao limbo.
E nesse processo ficamos defensivos. Lembro–me do professor do filme do Visconte, Violência e paixão. O sempre defendido professor que num momento perto da morte se depara com uma desarrumação de sua vida, que lhe custará a quebra de seu mecanismo de defesa. A vida supera as expectativas, ela corrompe o estabelecido, ela desordena o que se supunha ordenado, ela bagunça tudo, ela se bagunça, para quebrar o que ficou cristalizado pelo tempo.
Mas do que adianta a bagunça se não conseguirmos dar a ela o seu lugar. Depois da bagunça constituída voltamos correndo aos antigos modelos e queremos logo restabelecer a ordem, a regra que foi violada. (setembro 2008)
Olhares bifurcados

Desde que li uma conto do Borges, que tinha a palavra bifurcação no título fiquei com ela na cabeça, sabia que algum dia , alguma hora escreveria algo em que tivesse a possibilidade de usa-la . Lembro que na época cheguei a escrever uma carta de amor para alguém que tinha comigo encontrado um jardim, mas cujo caminho tinha sido, por falta de coragem, bifurcado, e só retomado anos depois. Como já previa meu caro Álvaro de Campos tal carta era ridícula , tinha que ser, não caberia a ela outra qualidade a não o fato de ser ridícula, como foi ridículo o arrependimento de tê-la entregue em mãos, um minuto depois. Mas passou.
A bifurcação hoje é outra, e é admirável a separação que as pessoas fazem de certos compartimentos de vida. Eu separo tudo, meu cérebro fragmenta as situações, no que tange ao que chamo de resto. Mas já no compartimento emoções, sexo, amor, prazer, aí não há compartimentação, que dirá bifurcação.
Se a coisa acontece mais de uma vez, não tem jeito, já entrei no caminho tortuoso. Já imagino o que vai acontecer. Não me iludo. Quando se for, quando o caminho enfim , mais uma vez, se bifurcar, vai doer . Vou chorar. Vou sentir a falta, mesmo já sabendo que o contrato não previa cláusulas emocionais. Que o trato era de desapego e não envolvimento.
Acontece que saber as regras não nos priva de viola-las. Eu sei, mas nunca respeitei. Eu minto. Digo que respeito,mas não respeito. Eu que sempre me considerei verdadeira, hoje me esparramo de rir de mim mesma e mas ainda dele, que crê que eu respeito todas as regras. Não que o que eu diga seja mentira, não é. É a verdade que eu queria acreditar que fosse. A verdade que eu queria sentir.
A diferença entre sentir e querer sentir. Querer sentir o que deveria ser. Quero sentir que não me faz falta, mas faz. Quero sentir que não sinto saudade, mas sinto. Quero não pensar sempre, mas penso.Quero não pensar, que queria que ele pensasse.
Somos malucos, estranhos, temperamentais, temos idéias bifurcadas e vivemos o tempo todo defendendo os nossos discursos mentirosos de nós mesmos. (setembro 2008)



Ser Estranho

Eu não sou estranho.Tem muitas pessoas mais estranhas do que eu. Comparativamente, é natural que sempre achemos alguém que nos seja mais absurdo que nós mesmos.
Meu amigo de personalidade auto-destrutiva é muito mais estranho do que eu.
Aquela mulher que pinta os cabeços de azul é muito mais estranha que as outras que pintam o cabelo de castanho.
Essa relação de casal não é estranha, àquela do casal do apartamento ao lado é muito mais estranha.
Suas roupas são estranhas. Talvez porque sejam da estação passada ou porque não são minhas.
As idéias me parecem estranhas, os discursos me parecem estranhos, mas deve ser porque não são meus, peguei emprestado de alguns autores que li.




Reflexões


Pensar que depois que nascemos caminhamos necessariamente para a morte, não é nada novo. Novo talvez seja nesse contexto o fato de não conseguir dar conta de saber das
idéias daqueles que todos falam.
Se falam porque conhecem de verdade, muito bem, o problema é quando falam achando que sabem algo que não sabem.
A contradição largamente difundida entre o pensar e o viver, entre o escrever e o viver permanece. Quem escreve e cria não precisaria viver intensamente as coisas pois que sua capacidade de criar e observar vai além e ele se permite através dessas duas capacidades, fingir. Fingir tão bem, que chega a pensar que viveu aquilo que jamais viveu, parafraseando Pessoa.
Entretanto, não é tão simples assim. Quando se vive e escreve, a sensação que se tem é que o pensamento nos trai a cada letra que escrevemos. E temos a clareza de que as palavras jamais darão conta de tudo aquilo que sentimos. Talvez por isso quem viva intensamente não consiga escrever. E quem está um pouco mais paralisado é que dá conta desse universo.
O distanciamento para a escritura é fundamento do ato. Caso contrário tudo fica com um tom assim meio verde pálido, que não esboça nada de interessante.
Pode ser a maior besteira,mas tem formas de discurso que fazem com que essa besteira se torne algo interessante aos olhos do leitor. Isso sem contar o fato de que o leitor, hoje, quer ouvir ou ler o que ele já conhece mais ou menos.
Talvez seja esse o segredo do sucesso de alguns por aí.
Aí o escritor/codificador seja lá como se chame. Senta na sua cadeira e olha sua estante grande ou pequena,sempre um universo misterioso a ser desvendado, isso parece lugar comum. Um lugar a ser perscrutado, independentemente da estante de livros. Paul Auster fala em seu livro de uma estante de catálogos telefônicos. Parece besta, mas com imaginação rica, muito rica, o escritor senta em frente a essa estante e cria uma história para cada nome que aparece ao léu.
Mas desemboquei nesse assunto porque olhando a estante me dei conta de que não tive toda liberdade para ler o que quisesse ler.



Constatação

Sentada a frente da televisão vejo programas e corrijo provas. Que tédio a tarefa de corrigir aquilo que tentamos minimamente passar para quem não quer receber.
O programa interessa mais que as provas, talvez assim eu seja mais boazinha e esqueça que só estou ali intermediando o que meu padrão quer vender e as pessoas querem comprar, eu ali, de bucha. Certas horas a bucha fica completamente inchada, aí tem que espremer, espremer no ralo para sair todo ar, ou toda água e recomeçar.
Atiramos para todos os lados, e quem nos atirará a primeira pedra? precisamos sobreviver. Fácil é a posição de quem desconhece essa realidade e a condena, como se fosse fácil sobreviver em lugares privados como é em lugares públicos. Na verdade, no privado está todo o público, que não sabe porque está ali, que tem a ilusão de que vai alçar voo, talvez ,para quase o mesmo lugar, E nós ali de bucha. O canhão é imenso, poderoso, nos impõe metas, obrigações ardilosas, chatas, inúteis, e a bucha inchando.Lembro-me da máquina kafkiana da “Colônia penal”, parece que estamos nela, e cada dia nos é escrita uma nova sentença, que só complica nossa vida e diminui o que ganhamos. Até a hora de subsumirmos sem mais nenhuma possibilidade de reversão.
Nesse dia o que será que acontecerá? Sempre nos perguntamos, sempre tentamos olhar o papiro que contém a sentença mortal, mas não encontramos, só encontramos a que vai lentamente matando, pequenos escritos, pequenas picadas, para o sangue ir escorrendo aos poucos, causando dor, secando por dentro até o fim, que não é em 12 horas, mas em 30 anos. (Junho 2009)


domingo, 7 de junho de 2009

Reflexos


Entre o amor e a paixão

Demorei muito para perceber a diferença entre amar, amor e paixão. Na idade que tenho sempre busquei irremediavelmente a paixão. Aquele amor que me fizesse sair do chão, aquela coisa hollywodiana que estamos acostumados a ver em filme e novelas.
Entretanto, depois de um tempo vivendo isso que chamamos paixão, entrega profunda, adrenalina,medo de perder e mais um monte de coisas, tudo passa, talvez Cazuza,cantando Melodia tenha razão quando diz, que “coincidência é o amor”. Pois é, chego a conclusão de todos que falavam da diferença e estavam certos.
A paixão é boa mas não é plena, ela cega e nos faz refém, e isso nem sempre é bom, talvez por isso, está cientificamente comprovado, dura pouco. O tempo para que haja a procriação.
A sedução do começo de quando queremos algo que nos parece inatingível.
Entretanto, existem pessoas que não sabem viver o que vem depois da paixão, do estar apaixonado. E sempre quando o primeiro momento acaba elas acham que nada mais existe, e vão em busca de uma nova paixão.
Essas pessoas jamais amam de verdade, talvez nunca tenham amado e se deixado amar.
Elas vivem numa corda bamba, no fio da navalha . Elas acham que só existe amor se houver paixão, e isso não é verdade.
Não ficamos a vida toda apaixonados, é ilusão achar isso.
O amor é algo completamente diferente.
Eu achava que ambos tinham que caminhar juntos, porém agora vejo que é quase impossível essa caminhada concomitante durante muito tempo.
Durante muito tempo sofri sem saber o que fazer quando minhas relações chegavam àquele ponto em que não se tem mais paixão, mas se tem outras coisas, que eu não sabia o que eram.
Para identificar essas outras coisas é que era difícil ,já que vivemos numa sociedade onde as relações são tão consumíveis como um sorvete.
Nem sempre nos satisfazemos e quando a paixão , o momento da sedução primeira acaba, nos vemos sugestionados a dar um basta em tudo. Até porque tudo parece conspirar para isso.

Então ,quando aquela sensação me invadiu parece que olhei toda a minha vida com um outro foco. Descobri o quanto do meu tempo foi voltado para entender algo que não era da essência do amor, que eu parecia sentir pelos homens que tive.
Pensando refiz minha trajetória .Me sinto mais madura nessa fase da vida , sou uma balzaquiana, já casei, já separei, já tive muitos namorados, muitos amores e desilusões.
Esperava do amor exatamente aquilo que aprendemos nos filmes e novelas, esperava a paixão, estar sempre apaixonada e ter alguém apaixonado por mim era meu eterno ideal. Todas as relações começavam assim. Sempre da mesma maneira. Primeiro eu não querendo, depois eu me apaixonando, depois a coisa ficando morna e no fim ao me ver sozinha, eu de novo apaixonada pelo simples fato de ter terminado. Por causa do vazio que isso me causava. Ainda não entendi muito bem por que os términos sempre me levaram a uma dor profunda, e sempre me achava apaixonada pelo indivíduo, depois que ele se ia.
Tenho consciência disso hoje, por ser algo que não quero passar mais,busquei entender e entendi como acontece, mas não entendi o porque acontece, isso deixo para Freud ou qualquer outro desses que desvendam o inconsciente humano. Talvez um sentimento de rejeição ,não sei...
Mas não queria falar do que não entendi. Quero falar daquilo que me pareceu ser desvendado pela pessoa mais improvável. Não que a pessoa tenha desvendado para si, que ela tivesse entendido isso, pois acho que não entendeu, mas a sua fala fez com que eu entendesse, no meu íntimo, o que é o amor e o que é a paixão, a diferença dessas relações e como elas podem interferi na nossa felicidade e vida.
Vários autores dizem que a pessoa que amamos é nosso reflexo, não entendi muito bem isso, mas sei que admiramos no outro o que eles tem de nós mesmos , e isso me fez ver como fui a vida inteira e como acho que não sou mais.
Em uma relação o parceiro me disse que não era apaixonado por mim. Num primeiro momento isso me pareceu doloroso e alvo de uma provável suspensão do que vivíamos , entretanto, depois, pensando sobre o assunto, consegui ver uma outra face nessa história e que se relacionava a mim mesmo.
Coloquei-me numa outra situação e vi que pouco tempo da vida passamos apaixonados, que é algo tão esporádico, que dura tão pouco e é tão efervescente e ao mesmo tempo tão esquisito, não existe relação que viva uma paixão eterna, várias são as formas em que o amor se realiza sem ser apenas pelo campo da paixão.
Duas diferenças são básicas nesse sentido. Quando queremos conquistar alguém ou quando alguém nos conquista vivemos as vezes meses investidos daquele sentimento turbulento, porém quando essa turbulência acaba temos novas coisas para nos despertar na relação.
Se estamos dispostos a amar de verdade temos de ter consciência disso. O amor é algo construído quando queremos, a paixão é algo que nos arrebata mas que nos causa um vazio. O amor pode ter momentos de paixão, mas a paixão independe do amor.
A maturidade nos remete para o amor , remete a valores desconhecidos das coisas que vemos e temos e vivemos. Vemos nas pessoas coisas que na paixão éramos cegos para ver, e que no amor vemos e aceitamos, aí é que está nossa disponibilidade para aceitar o outro como ele é.
Hoje em dia, dado a fugacidade das coisas, ao consumismo, tendemos a ter nas relações o reflexo do consumo, não satisfez troca, sai em busca de outro, entretanto, não nos damos chances de construir e descobrir o amor com as pessoas.
Vamos sempre pulando de galho em galho, relações paralelas, que no fundo só nos deixam mais vazios . Isso é o que vejo em homens e mulheres. Não sou assim, por isso me acho anormal, diferente da maioria.
Não tenho medo do amor, pois isso tenho para dar e vender, mas tenho medo dos tipos de relações, talvez por já ter passado por algumas que eu não tenha entendido.
Ver meu parceiro hoje, me fez me ver, já estive apaixonada por ele , hoje acho que não mais ,porém não acho que isso seja um problema. O que quero é conhece-lo mais, é curtir estar com ele, é construir algo, dividir. Enfim, tudo que é bom, sem receio e com calma. Sei lá, parece que os valores mudaram de foco.
O que ontem, antes, no passado eu queria, não quero mais. Não é mais a paixão que me satisfaz, é outra coisa, somente agora já tendo passado por ela é que consigo ver isso, e me sinto feliz.
Me sinto plena por ter descoberto essa diferença. E ele me fez ver esse fato. Sem querer ele me descortinou algo que há muito me fazia sofrer, acho que toda a minha vida, algo que me fazia suspeitar das minhas relações, que me colocava em cheque, algo que fazia com que eu questionasse e achasse que me davam menos do que eu merecia. Toda a expectativa que eu colocava sobre os parceiros que me envolvia.
Acho que ele não sabe dessa diferença, que me fez ver, busca incessantemente a paixão, as bocas e corpos diversos, muitos sem muito significado. Ele, pelo que vejo, não sabe ainda seu caminho, não sabe que o caminho é o importante, que a sua construção é que importa, seus tijolos e a massa com que eles serão colados. Ele não vê isso ainda, talvez seja ainda imaturo, talvez não tenha vivido o suficiente, ou não se tenha permitido levantar as paredes. Vive a catar tijolos sem buscar massa para cola-los, um sobre o outro. Vive buscando a paixão.
Catando um tijolo aqui, outro acolá, eles são largados no tempo sem nada, e isso faz com que os tijolos apodreçam, e cada vez ele tem que catar novos tijolos para um dia preencher sua parede.
Mas ele não sabe que tem que alicerçar as paredes antes de colocar o tijolo e a massa, o alicerce é o amor, a convivência, não é a paixão. A paixão serve para uma busca preliminar e não para levantar as paredes.
Acho com essa descoberta entendo melhor o que tem se passado na cabeça da grande maioria da pessoas.
Todos querem o imediatismo e nada que dê trabalho ou preocupação, nada que precise regar, nada que implique responsabilidade.
Aí surge uma outra coisa que também é comum nos nossos dias, por não se permitir amar, as pessoas também não sabem ser amadas.
Mas o que é saber ser amado? Essa é uma questão que ainda não está clara. Penso que passa pelo fato de a pessoa se sentir culpada porque a outra o ama . Como se dependesse dela o amor do outro. Aí as pessoas fazem coisas para poder afastar de si aquele ser que a ama.
É como se ela jogasse contra ela mesma.
Não existe quem não se sinta bem em ser amado, mas muitos relutam.
Como saber da cabeça do ser humano. Cada dia pior, cada dia querendo mais, e estando mais só.
Me basta escrever para deixar alguém ler e talvez se identificar.
Rio de Janeiro, 5/1/2006


Novos Contos da cidade

No Castelinho da Garibaldi


Passava das 18 horas quando o bonde que fazia a direção Usina parou em frente ao castelinho da Garibaldi e de dentro saiu um dama antiga. Vestido preto discreto comprido até os joelhos, bolsa pendurada nos ombros, óculos também escuros, nos pés um Chanel preto de salto alto com meias fumê..
Parecia assustada, mas isso não a intimidava no andar. Saltou, esperou o bonde passar, e entrou no castelinho sem nem mesmo tocar a campainha.
Será que ela morava lá? Há muito ninguém mais entrava naquele lugar, quanto mais a essa hora do dia, cinco da tarde. O local parecia abandonado, sem luzes a noite, sem jardins arrumados, sem cores de castelo, diziam os do local que ali tinha ocorrido uma tragédia, as pessoas sempre ficavam a olhar um prédio tão lindo a ser destruído pelo tempo.
Mas naquele dia, as 5 da tarde, algo havia acontecido. Eu estava parado, na esquina da rua quando aquela mulher misteriosa saltou do bonde.
Aquilo atiçou minha curiosidade e espanto. Fiquei a imaginar, o que ela faria ali dentro, se teria alguém que nunca saía, um ser decrépito, misterioso, que tinha sobrevivido ao trágico infortúnio de sua existência .
A hora foi passando e eu não conseguia sair daquele lugar, aquela esquina onde me encontrava, minha mente se enchia com as histórias que eu criava e imaginava estarem acontecendo lá dentro.Estava no meu íntimo esperando que ela saísse para que eu adivinhasse pelos seus passos e seus olhos o que teria acontecido .
Uma hora, duas horas , três horas, quando deu 8 da noite de novo o portão se abriu, ela saiu como entrou, silenciosamente, na sua face não tinha lugar para ansiedade, sentia de longe que estava mais tranqüila do que quando entrou,as 5 horas.
Ela atravessou a rua, eu de longe a olhava, parou no ponto e logo o bonde das 8 chegou. Ela tomou o bonde, sentou-se na terceira fileira, cruzou as pernas como quem se acomoda para o tempo passar, os óculos escuros não estavam mas no seu rosto, o apito soou. O bonde saiu. E eu ali embevecido, sem saber quem era, se era, acordei, já era hora do jantar.

16/05/2009.


Cotidiano de uma tragédia

Naquele dia bonde atrasou. A fila grande dobrava a esquina e criava ansiedade nos que chegavam. Seis da tarde, barulho de rush, todos os ônibus lotados,inferno atravessar a cidade a essa hora. E fila aumentava cada minuto e nada do bonde.
De repente a chuva começa, pessoas espremiam-se sob uma marquise descascada , onde se via o ferro da laje . A chuva fica mais forte e num piscar de olhos a multidão se desespera. Pessoas correndo para todos os lados, mulheres gritando, crianças berrando, homens atordoados sem saber o que fazer. A sirene dos bombeiros soa forte, homens de macacão afastam as pessoas e começam a levantar os pedaços de laje.
A frente uma criança chora, a mãe está embaixo e ela sozinha não tem para quem correr. A marquise tinha caído. Não tinha mais o que fazer. Os bombeiros acodem como podem, a ambulância chega,a mulher é retirada dos escombros e a criança corre em sua direção. Mãe e filha se abraçam, a vida parece que ressurge.

Cidade sem memória.


Passava das 5 horas da tarde de quinta feira quando enfim a noticia da morte havia chegado à pequena cidade. O calor era intenso, mês de janeiro, e o verão castigava o solo de pedra e seus habitantes bronzeados. Todos na localidade conheciam aquela saga vivida por um homem e uma mulher em busca da vida e do romance. Porém, não era mais uma história de amor, ligada dramas shakespearianos da proibição, mas uma história de vida de rejeições e sentimentos perturbados.
Eram os personagens, indivíduos comuns, que buscavam apenas sobreviver, e registravam onde passavam seus descontentamentos e seus questionamentos, suas agonias, ansiedades e dores. Porém, tudo chegara ao fim, ou ao começo, já que não ninguém, sabe bem de onde vem nem para onde vai.
Começou numa hora improvável, inúmeras pessoas num mesmo local, com objetivos idênticos, matar o calor que sobre suas cabeças imperava. Foi assim que se conheceram. Ninguém dizia que aquela mulher que acabara de se encarregar de seu amor poderia estar ali selando sua passagem para um outro espaço e uma outra forma de ver a vida. Ele, por sua vez, jamais suporia ter em sua existência algo tão desafiador, nem mesmo olhava-a nos olhos pois tinha receio do reconhecimento trazer-lhe lembranças fugidias que preferia esquecer.
Mesmo assim, o encontro se deu, depois do primeiro, um novo encontro, mais outro e outro, num total de 51 vezes. Toda a coisa parecia confluir, eram conversas, realizações, medos, angústias e planos que os envolviam . Porém algo de estranho estava no ar. Algo como um medo inerente ao próprio ser, se encarregava de não deixa-los viver. Não se permitiam questionar o que era aquilo, mas o incômodo permanecia. Vinham de vivências outras e aquele momento talvez ainda não fosse o certo, mas como tudo, foi se arrastando. Em meio às 51 vezes a intensidade era enorme, buscavam em prazeres mútuos compensar aquilo que não sabiam existir. Aos poucos a necessidade foi surgindo, a dificuldade primeira em abrir a flor foi, depois de um tempo, tida como lenda e em inúmeras paisagens flores e galhos comungaram de grande êxtase nos jardins, que no principio pareciam não ter força suficiente para fazer brotar orquídeas e tinhorões.
O tempo foi passando até que se soube por toda cidade que uma febre estava por chegar com os ventos vindo de uma quarentena, em lugarejo visinho.
Os habitantes se preocuparam, não sabiam os efeitos do mal, e desconheciam os sintomas, além do mais, o preconceito contra os doentes era algo arraigado sem suas mentes.
Sem pedir licença o mal foi se chegando e sendo transmitido, de pessoa para pessoa, e os sintomas foram se agravando. Mas era um mal tão sorrateiro que não deixava que os atacados se apercebessem dos seus estragos, primeiro ele causava uma enorme ansiedade, não se sabia de que, depois uma tristeza profunda, seguida de uma inércia parecida com a trazida pelo calor, seguindo nos sintomas, aparecia o que se chamava de ausência, homens, mulheres e crianças não sabiam,simplesmente não sabiam, seja lá o que fosse, qualquer pergunta os atirava ao poço, não conseguiam saber nada, queixavam-se de tudo e tendiam a dizer que nada sentiam e a fugir de quem os colocasse a prova para ver se tinham o mal.E por fim, o auge dos sintomas, o não reconhecimento de si e do que sentiam.
A febre foi de grande estrago na cidade, isso porque, ao serem acometidos os indivíduos não se reconheciam e julgavam que não eram o que eram, não sentiam o que sentiam, uma enorme confusão entre o ser e o não ser, o gostar e o não gostar, o ter e o não ter, ninguém mais se entendia, filhos não conheciam mais os pais, mães não sabiam quem eram seus filhos, nem o que sentiam por eles, casais não se viam mais como tal, pois que o mal camuflava seus sentimentos e os confundia diante das reações vitais.
Ninguém mais levava vida normal, os trabalhos eram burlados, os estudos largados e até mesmo as fornicações deixaram de existir na cidade pois os sintomas deixados pelo mal, inibia os instintos mais animais dos seres humanos, o sexo e a procriação.
Em meio a essa catástrofe aquele homem e aquela mulher não ficariam imunes, marcados como todo o resto da cidade, também eles se desconheceram quando o mal se instalou. Vinham de uma série de encontros, mas quando a febre chegou, no momento seguinte eles não mais sentiam seus instintos básicos e a confusão que se dava no resto, também com eles se deu, não sabiam mais quem eram, nem o que os envolvia, não sabiam mais nada. Dessa forma, os encontros cessaram com a sensação de terem sidos interrompidos numa hora que não era, e por uma causa que não era deles, mas de fora.
O mal progrediu, afetando mais gente do que as autoridades supunham e deixando a cidade perdida , desmemoriada .

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Rio, 6/11/2008

O Já-morreu

Seus pés são gelados o tempo todo, faça calor ou frio,a extremidade parece saída do freezer, mas isso não se pode dizer que seja algo só fisiológico. Seu pé é a materialização de sua própria emoção e sentimentos, frios, cruéis, conservadores, o próprio gelo cristalizado .
Sua vida se resume a investigação das coisas e não de si, do pensamento de outros sobre as coisas. Busca a terra do fogo. Pelo nome, o inverso de sua frieza consciente.
Pensa que controla o mundo, quer controlar tudo a sua volta, as pessoas tenta encaixar nas formas que existem em sua mente, os aparelhos, as necessidades e a própria morte ja foram organizados. Já marcou data, hora, local para ela acontecer.
Não permite intromissões nos domínios intelectuais, de desejo, de convivência. Se alguém se aproxima um pouco mais dele, o contato de pele lhe dá choque e a quentura do outro pode derreter seu gelo,então, ele não permite.
Seu discurso é sempre o mesmo. Se subestima na capacidade de dar, porque está determinado a não dar nada, nunca, a mais ninguém, exceto os filhos, mas mesmo para esses não se entrega por inteiro.
Quer habitar um lugar inóspito, longe de tudo e de todos, onde o contato humano, que ele julga terminado e ultrapassado não existirá. Seria ele não com ele mesmo, porque ele não se enfrenta, ele com seus livros e idéias. Ele mesmo não se conhece. Falta-lhe a vontade de experimentar inerente ao estar vivo,nada pode experimentar. E sem experimentar, não se dá conta que vai morrendo e definhando sua carne a cada dia.




Sofá branco

Deito no pequeno sofá branco de couro. Nele me encolho como um feto em busca de proteção, de uma fuga no sono. A mente trabalha para digerir as sensações e amansar os questionamentos. Tudo é difícil quando se mudam padrões. Questiono se tenho mesmo e porque tenho que muda-los . Não quero a vida toda sofrer por causa deles, por isso é necessário mudar para melhorar. Por isso tenho vida. Se não fosse para mudar poderia morrer. Idéias cristalizadas só a dos mortos que não pensam mais, sentimentos cristalizados também só os deles, se os tem.
Durmo um sono conflitado, relâmpagos de sonhos em torpores de dispersão.Acordo, durmo, durmo, acordo sem conseguir levantar. Os mesmos pensamentos, as mesmas pessoas, sonho dormindo,sonho acordado, difícil processo de elaboração, des-complexificação , desilusão .

sábado, 29 de novembro de 2008


CARTA DO LEITOR – 27/11/08
Tenho um bibliófago em minha vida, e não sei que fazer com ele?Essa era a pergunta de Maria quando escreveu a carta para a coluna do psicólogo no jornal. Na carta ela perguntava e contava a história.
Tinha conhecido um homem há muitos anos, e se reencontraram agora. Ele vivia num pequeno apartamento cheio de livros que considerava seus maiores amigos. Ele dizia pouco sair, dizia pouco querer, não falava sobre passado, e buscava sempre nos livros a razão para sua existência. Queria ir para a terra do nunca, ele e alguns livros, nessa terra ficaria livre de tudo, de todas as cobranças, de todas as pessoas, de todas as obrigações. Pois tudo isso o perturbava.Queria dela apenas o recorte, pois isso os livros não davam.
Maria não entendia como tudo o perturbava se ele não tinha tudo aquilo que dizia.
Será que os livros o ameaçavam? Cobravam-no, davam-lhe obrigações?
Maria começou a pesquisar o caso, procurava nas enciclopédias, na internet, o que seria uma personalidade bibliófaga. Numa de suas pesquisas achou uma definição, - era um tipo descrito por Canetti -"aquele que lê tudo, sem distinção, basta que sejam difíceis”, mas não era bem isso. O cara lia, mas não tudo. Ficção por exemplo, ela não sabia se ele lia, talvez desprezasse o universo inventado, mesmo que fosse maravilhoso.
Lia sobre viagens, isso combinava com a definição de Canetti- “nunca visitou cidade alguma, sem antes ter lido tudo a respeito dela. As cidades se adaptam ao seu conhecimento”. Fazia sentido essa descrição, mas não só em relação às cidades, mas em relação também às pessoas . Ele julgava que pelo que já tinha lido podia adivinhar e saber quais eram as expectativas de todos, inclusive a dela, Maria. Sem dúvida, se enganava muito, porque achava que sabia o que não sabia.
Maria continuava sua pesquisa, e nos relacionamentos? Eles tinham uma relação, se conheciam, se encontravam, mas essa nomenclatura não convinha para ele. Ela buscou mais uma vez a definição - o bibliófago jamais fica só, ele precisa de alguém que o ouça, “ seu mundo constitui-se de livros e ouvintes”, “entrementes, às vezes se casou, outras acaba de divorciar-se novamente. Suas mulheres desaparecem”. “Ele admira homens que o estimulem a superá-los”.
Maria ficou na dúvida, seria ele iludido quanto a sua opção. Buscou então livros que falassem sobre opções sexuais e ainda assim não teve resposta. Foi quando resolveu escrever a carta ao psicólogo.
O psicólogo achando o caso muito complexo mandou Maria esquecer as definições. Mas seguiu ainda o manual do Canetti, numa última tentativa de ajudar, mandou Maria escrever cartas ao bibliófago, solicitando informações. Se for um bibliófago comum, com as cartas freqüentes o homem cada vez mais “estará a mercê dela(Maria) e desejará dispor constantemente de suas consultas.”
Maria diante da resposta não tinha mais o que fazer a não ser escrever...e recortar. Sem tempo, sem nome, sem nada...



Caldeirão - 27/11/08


Tem dia que é assim um caldeirão pegando fogo. A comida dentro ferve, ferve muito e não se consegue deixar tampado. Tem que destampar para que a fervura consuma o caldo e ele não derrame mais. Mas antes sempre derrama, suja, antes de engrossar.
Tenho medo desse caldo antes dele derramar, ele pode levar aonde nem sempre quero ir.
Sua espessura dita minha viagem, meu comportamento e sua fervura me consome, vou secando, secando, extraindo toda água que sobra. Por que tanto ferver? Por que tanto pensar ?. Inúmeras configurações de mim e dos outros. Cada hora uma nova imagem, um nova dosagem entra em minha veia me corroendo, um novo metro cúbico dosado nem sei porque, ou por quem. Sei que é meu isso, sei que cada etapa isso vai acontecer. E cada dia mais e mais e mais, até eu não suportar.
O dia em que não suportar, escrevo. Não dá para falar, parece a falta de algum conteúdo, alguma substância, por que não é assim sempre, inquietação.
Julgo ser falta de endorfina. Por isso meu vício em ter que tomar doses de endorfina, toda semana.
O Belo- 26/11/2008

Era belo eu bem sabia, olhos claros e cabelos também claros, corpo de menino, baixinho ou altura normal? Talvez um pouco abaixo da média. Já o conhecia fazia tempo, acho que uns 3 anos. O conheci em outro lugar. Sempre que passava por aquela rua lembrava que ele morava ali, mas nunca durante anos o encontrei.
Entretanto, sempre alimentava essa vontade, pensava em como seria encontrar um pessoa assim, significativa, depois de tempos.
Descia então para o centro da cidade quando o encontrei.Vinha caminhando como eu, e logo nos deparamos um com o outro, eu ia ele vinha. Como sempre aconteceu em nossa vida. Tínhamos desde sempre caminhos invertidos. Ao menos assim me pareceu depois desses anos. Idéias conflituosas diante da vida. Ele achava que eu achava uma coisa que não achava, nem dá para entender. Mas nos dávamos bem. Ele na sua fantasia de homem livre e libertino e eu na minha, de ter de colocar alguém em alguma lacuna de minha existência. Alguém no vazio mental que eu possuía.
Durante quase um ano a vida foi assim preenchida, não sabia, e por não saber, o que julgava que sabia, me desfiz .Como era de se esperar, depois que me desfiz percebi o que fiz. Tarde demais. Não poderia mais. E o tempo passou e passou, e como sempre ele também . Hoje, quando o encontrei, vi que passou, me senti gigante diante daquele homenzinho que eu tinha achado tão grande ontem. E olha que eu nem estava de salto.



Amigos -26/11/08

Amigo é sempre bom. Nos perdemos em conversas e deles podemos escutar quase tudo. Tem amigo psicólogo, administrador, músico, professor,terapeuta corporal, amigo que ama desesperado e que nos faz rir, amigo que quer nos amar e temos que fugir, amigos que são passionais. Que não nos tratem mal, porque os amigos respondem por nós, tem amigos sexuais e amigos castos, amigos de amigos, amigos de nós mesmos..
Mas também tem aqueles que não conseguem escutar sem falar, que tem sempre uma maneira de se intrometer, a sua luz, quando deviam apenas escutar.
Eles nos ajudam a pensar e dividem conosco nossos piores e melhores momentos.
Amigos homens e amigas mulheres. Cada fase da vida temos uns. Ás vezes mais sinceros, as vezes só de copo, outras só de farra, ou só de passeio.
Precisamos deles . Quando a dor nos envolve eles nos amparam, e sempre tem algo que dizer, mesmo que nós nem escutemos.
Meus amigos são assim, pau para toda obra. Uns mais íntimos, outros mais superficiais, uns mais egoístas, outros todo amor. O amigo da cama, que não quer ser amigo, o amigo da sala, que só quer falar de si, o amigo que te vê como ele, quando você não é ele, o amigo que acha que te conhece mais que você mesmo e quer que você aja como ele agiria. Ai amigos. Que seria de mim sem vocês.


O escritor -27/11/08

Alguém já disse, não sei onde, que escrever era um ato de devoção. Eu concordo. Todos que querem escrever tem uma pulsão absurda para o ato, mas precisam também de uma devoção e uma disciplina atroz.
Escritores passam dia inteiro sentados escrevendo, criando histórias, criando vida. Brincam de criadores, de Deus? Não sei, sei que criam. E aí é indistinto o que se cria, se é poesia, se é texto crítico, se é vida própria, se é vida de outro, o fato é que essas pessoas são contaminadas por um vírus que traz uma necessidade de se expressar de qualquer forma, e fica quase inviabilizada a sua vida se não realiza essa mágica de mexer com as palavras, a fim de dar-lhes um sentido derivado de sua união.
Não é a palavra solta que interessa, é a palavra em conjunto, é a palavra misturada, miscigenada, retorcida, estuprada, retirada de tudo e de todos, a palavra abortada, ou mesmo a palavra parida .
É comum muitos escritores pós-modernos se dedicarem a fazer essa cirurgia do ato de escrever, do movimento e uso das palavras. Mas por que? Talvez porque seja tão difícil se ter consciência do que se escreve, no próprio momento em que se escreve, e seja tão importante para quem escreve tentar traduzir de novo em palavras aquilo que sente.
O que sente? Digo sempre que a literatura é a expressão de um povo, de uma pessoa, para ser mais fiel ao texto. Um povo não escreve romances, histórias que tenham sua visão coletiva sobre a vida . Um povo vive as histórias. E poucos são aqueles que conseguem a partir delas fazer uma síntese, criar algo. Mas é expressão? De quem?
Hoje muita gente escreve, muita mesmo. Abrimos a internet e chove torrencialmente sites com textos de ilustres desconhecidos e conhecidos também. Todos querem falar, mostrar o que falam. Alguns melhores que outros. E num país em que o livro não vira um objeto de consumo primário, começo a pensar sobre a posição dos sites e blogs, dentro desse universo de formação de povo leitor dentro da internet.
Eles lêem mesmo? Segundo uma blogueira, que não gosta de ser assim chamada, porque já se transformou numa escritora convencional, as pessoas não só lêem como comentam o que lêem de forma até mesmo agressiva e isso passou a incomodá-la.
Mas por que ela vai ler os comentários. Fecha para isso. Não dá o email. Mas isso é de cada um.
O fato é que também o comentar passa por viés da necessidade de expressão. Mas acho que esse comentário é falso, porque muitos do que escrevem não assumem o que escrevem. Pasmem!
Não sei como enveredei por esse caminho nesse texto, talvez por estar pensando em meu blog, e se alguém o lê, e como chegam até ele . É isso .


CADERNO LARANJA DE 2004
Quem sou eu?
Eu, Maria, Rahel, Elisa, Hannah,Clarice,Virginia,Capitu, todos os nomes de mulheres, sou, torturada, oprimida, escritora, autodoadora, fatigada, servil, egoísta , narcisista, mimada, sultanesca,arremessada, inventada.
Inventada é o que mais sou, invento-me a cada minuto, não só a mim, mas a tudo e a todos.
Vivo pelo simples prazer da construção verbal de alguns. Existo só por isso e por nada mais.


O processo:

Um bilhete


Era visível naquele momento a resistência em seguir. O boicote feito por ela a sua própria vida sentimental, naquela hora, se mostrava com toda a sua força e crueldade. Ela jogava contra si mesma durante todo tempo e ali isso parecia mais forte.
Tudo partiu de um bilhete deixado, à noite, no carro do futuro pretendente, daquele escolhido para ocupar o espaço. Na noite anterior fizera essa tentativa e estava aguardando um telefonema. Tinha tomado a decisão de fazer algo para conhecer aquele que havia chamado atenção.
Entretanto, ao aguardar a resposta do bilhete, pela manhã do dia seguinte, a reação foi de volta, pegou o telefone e mandou uma mensagem escrita para o velho amor( que ainda não era esquecido) convidando-o para sair. Esse, como sempre, jamais respondia às suas mensagens ou pedidos. Ela sabia disso. E, ao longo do dia, esqueceu a mensagem mandada. Na mesma tarde, recebeu uma ligação, seu bilhete deixado no carro tinha surtido efeito o homem ligou para ela. Numa reação de surpresa e sem saber como falar ela atendeu ao chamado, tentou explicar quem era, mas ele não parecia se lembrar, ou se lembrava, fingiu. A conversa foi rápida, mas suficiente para trocarem seus nomes e prometerem se esbarrar no trabalho. Ela ficou sentida por achar que ele não se lembrava dela e decidiu nada mais fazer, deixar que a coisa seguisse seu próprio rumo, já tinha dado a brecha, agora esperava que o caçador se manifestasse, e jurou não mais mover suas mãos .
Porém, se traiu mais uma vez, acuada e acossada pela nova possibilidade pegou outra vez o telefone e mandou outra mensagem para o velho amor. Mensagem essa que mostrava sua tristeza em não obter uma resposta e dizendo que não era antropófaga, que só queria conversar.
Para sua surpresa, o velho respondeu: não poderia sair naquele dia pois tinha um encontro.
A palavra encontro caiu-lhe como um furacão sobre a cabeça.
Naquele momento um vento frio lhe cortou a espinha. Sua mente revirou, milhões de sentimentos a cortaram como uma faca recém afiada. Sentiu dor, raiva, tudo que uma mulher é capaz de sentir quando se vê rejeita por quem ama, quando se sente trocada por qualquer coisa, mesmo que imaginária.
O primeiro impulso era de sair e descobrir se de fato ele dizia a verdade. Mas porque mentiria? Talvez por não ter coragem de dizer que não queria. Que temia. Mas de qualquer maneira o que importava, ele já tinha dito isso mil vezes, só ela não ouvia. Encontro com homem, mulher, amigo, amante, tudo. Independente de quem fosse, o sentimento era o mesmo, de desprezo, e ao mesmo tempo de raiva de si mesma por continuar insistindo em algo que não daria em nada.
Teve vontade de morrer. Mas se poupou como sempre fazia. E começou a se questionar. Por que passado tanto tempo ainda pensava nesse velho que não a merecia, que não se importava com ela, por que aquela atitude de volta, justo no dia em que estava dando um passo para frente. Ultimamente, todos os sinais a avisam que era preciso ir, que era preciso
deixar para traz aquele velho, nesse mesmo dia ouvira de outro homem que ela deveria anunciar que estava livre e não continuar agindo como alguém preso, compromissado. E aquela fala , daquele desconhecido, a surpreendeu principalmente pelo fato de que ele nem a conhecia para dizer isso. Além de surpresa, o que ele disse mexeu com ela.
Ela sabia que até então jamais tinha estado disponível para outra relação, para que outros homens a amassem e a desejassem . Mesmo tentando sair, se forçando a estar com alguém ao longo desses anos, ela sabia que jamais estivera de fato com alguém, pois se guardava para aquele velho, ou na esperança que aquele velho retornasse, como um Ulisses, que no final volta para sua Penélope. Porém ela não era a grega, mas tecia de dia seus planos para o futuro e desmanchava-os a noite, quando se deitava e pensava no velho. E assim deixava esperando seus pretendentes enganando-os e enganando a si mesma . Sonhava em andar para frente, mas recuava sempre que possível. Não tinha um dia em que não pensasse naquele velho. E não mais pensava no que foi,( porque já havia esquecido certas dores) mas no que poderia ser, numa mistura de apego, obsessão, idéia fixa.
Entretanto, naquele dia, quando ele respondeu a sua mensagem dizendo do seu encontro, algo mudou dentro dela. Depois do emocional a dominar, a razão, como sempre, sobreveio, e resolveu parar, pensar e deixar de sofrer e deixar de lado a dor para racionalizar.
Pensou que já tinha dito tudo que era possível a ele, mas por que ainda insistia em encontrá-lo?, pensou que já tinha pedido tudo a ele, e por que insistia em ser sua amiga. Ela sabia que essa aproximação não dependia só dela, mas também dele, e ele relutava, não queria. E ela não sabia porque motivo. Isso de certa forma a dava uma sensação de que poderia haver algo além das aparências . Talvez iludida com essa reação ela tentasse uma aproximação, mas ele não dava o mesmo sinal, todo tempo criava mil desculpas.
Ela no fundo achava que o contato poderia recuperar o que se tinha perdido, a ternura, a amizade, o desejo. Mas, racionalizando ela sabia que tudo aquilo era sua ilusão, porém tentava chegar, tentava sempre, temia passar por tudo sem tentar , talvez ela tivesse uma intuição, mas seu lado racional, não acreditava muito nisso.
Resolveu então criar sobre aquilo que sentia. Pois, se o real, se o amor concreto estava no estágio do impossível, pelo menos no campo da fantasia, ela poderia criar mil amores, que dessem certo, em que as pessoas lutassem pelos seus sentimentos os fazendo florescer e renascer quando perdiam o adubo e tivessem sucesso. E assim começou a fazer. Levou sua história para a ficção, o que de fato ela parecia.
Todos em algum momento de suas vidas tinham passado por aquilo. Todos que um dia amaram e perderam seus amores, sentiam esses mesmos sentimentos, todas que um dia foram desprezadas se identificavam com aquela personagem, que amava incondicionalmente um fraco, que não sabia amar nem ser amado.
Ela então escrevia para aqueles que como ela lamentavam a curta vida e os amores não compreendidos e não correspondidos. Aqueles, que como ela, se sentiam sós e que buscavam um espírito companheiro e romântico com quem dividir a existência . E assim passou grande parte de seus dias, tentando fazer seu público entender que é preciso aprender a amar e aprender a ser amado. (14/05/2004)




Sábado

Dia cinza inspira pensamentos cinza. Tudo parece estar assim sem cor ou com uma cor indefinida que leva a tender para a não compreensão do todo e de nós.
Acordou cedo naquele dia, mas tentou ficar na cama por mais tempo.Embora seus pensamentos não a deixassem dormir. Desde o dia anterior aqueles sentimentos a perturbavam, era mais uma fase do processo de esquecimento e desilusão. Ela sabia disso, e sabia que passaria que era questão de tempo. Por isso tentou não dar importância ao que sentia. Mas aqueles sentimentos, aquela angústia a consumia de uma forma avassaladora. Não entendia como de hora para outra tudo aquilo retornava. Talvez porque ela estivesse alimentando de alguma maneira aquele monstro que a devorava de vez em quando, talvez porque ela tivesse medo de se lançar para mais uma aventura . E assim ressuscitava dia a dia aquela relação, aquela figura impossível, criada pelo seu imaginário. Mas era ainda muito cedo para ela reagir dessa maneira , se defendendo do que ainda não tinha acontecido e que ela nem sabia se aconteceria. Porém, seu inconsciente não agia assim tão racionalmente quanto seus pensamentos.
Por isso ela sofria. Tentava de toda forma não demonstrar tal sentimento aos mais próximos, temia as cobranças, pois a sua própria já era em demasiado. Mas não conseguia disfarçar. Sentia-se tão seca por dentro, tão torturada por seus pensamentos e tinha mesmo raiva do que sentia. Não tolerava que estivesse ainda pensando daquela maneira, não admitia que tivesse ainda desejo por alguém que não a merecia, por alguém que não se importava, que era insensível que tinha todos os piores defeitos dos homens. Sim, ele conseguira tirar dela o amor e agora inspirava raiva. Coisa que ela não sabia controlar.
Sua vontade era de dizer todos os desaforos, de surrá-lo, de agir de forma agressiva, deixando sair toda aquela energia que estava acumulada. Mas não poderia dar vazão a isso. Pois nem perto ele chegava, e quando chegada ela se sentia desarmada. Ao desabafar escrevendo ela sabia, entendia e teorizava, mas diante dele ela não tinha coragem de falar nada. Somente o observava e ainda desejava. Era mais forte que ela, e isso a deixava confusa, perplexa e inconformada. Na verdade, não aceitava esse sentimento de maneira passiva pois sua razão a dizia que tudo aquilo era inviável, impossível diante da realidade, mas ela insistia e insistia, parecia que aquilo nunca teria um fim , que seria condenada a passar a vida vagando e pedindo algo aquele ser do absurdo. Que também não se sabia quem ser.
Até que um dia, ela se deu conta de que já era tarde para todo aquele amor, que ele não poderia continuar porque não teria mais seu espaço e resolveu deixar , largar aquilo que a realidade não poderia lhe dar e seguir. Olhou a natureza, a vida que a esperava e saiu ... Entendeu enfim, que para ser feliz, a melhor aliança era com ela mesma.


Exposição 15/05/2004

Estou cansada de ser chamada atenção.Ao contrário do que poderia ser considerado saudável, o fato de lutar , procurar, buscar recuperar o que se perdeu, é considerado exposição pelas pessoas. Não temos o direito de lutar . _ Olha você está se expondo demais. Não é isso o buscar o sofrimento. Ele já deixou claro que não tem brecha para você. Por que você insiste tanto?
Eu não sei, se soubesse não insistiria. Se soubesse que tudo isso é tão ruim eu não insistiria. Se soubesse que hoje isso doeria tanto não teria falado nada para ninguém e nem teria procurado. Sei que tenho procurado demais, foram uns 3 ou 4 telefonemas e umas duas mensagens de telefone, não busquei encontrá-lo em casa. Será que isso é tanto? Me pergunto por que não fiz isso quando me separei. Talvez porque estivessem todos me dizendo para não procurar ,talvez porque tivesse a psicóloga dizendo,- espera.E porque eu mesmo me policiava mais. Pois sabia do tempo que teria que ser dado. Mas acho que o tempo agora passou, se eu tivesse antes feito isso, quem sabe.?
Não me conformo ainda com tudo isso, mas sei que tenho que me conformar. Estacionei, e voltei da Groelândia no mesmo pé. Que diabos essa obsessão!
Quero chorar mas não posso, tenho que me trancar para fazer isso, para não deixar todos preocupados. Queria sair mas não tenho com quem. E tenho raiva dele por ter me provocado tudo isso.Porra, será que eu mereço tudo isso? . Tudo bem, todos venceram, ele venceu, eu não vou mais procurá-lo , de hoje em diante ficarei quieta no meu canto. Não mas mandarei email, mensagem de qualquer espécie. Não farei mais nada e preciso de força para cumprir isso que me determino nesse momento. Sei que já era hora, todos falam e eu sinto, ele exige, eu também. Mas mesmo tomando essa decisão eu penso que –será que fazendo isso ele se toca . Eu no fundo sei que não, pois já tentei isso outras vezes.
Preciso de ajuda, será que isso é hormonal? Será que estou desequilibrada? ou já estou na TPM outra vez. É muito pouco tempo. Será que terei que passar dopada todo o resto dos meus dias.
Sei que preciso de um namorado novo, que não é aquele bosta(ele). Sei que qualquer um poderá ser melhor do que ele, que ele é um merda. Sei de tudo. E ainda assim sinto isso tudo.
Que espécie de mulher sou eu? Só chego a conclusão que devo gostar de sofrer para me sujeitar a isso. Todos falam que ele é muito ruim, todos contra e eu só, a favor. Há algo de podre nisso tudo. Preciso sair dessa fria. Já está demais. Sei que já passei por isso outras vezes, e que passa, mas tenho que ter um estímulo, e o que me falta é ver outra pessoa como estímulo, pois até isso aquele merda conseguiu tirar de mim, ou eu dei a ele.
Tenho que mudar, preciso mudar para não morrer.
De novo no desespero, contesto a existência de algo que me ajude. Preciso de força. Tenho que elaborar uma estratégia. Não posso me deixar dominar por isso. Não é justo comigo mesma. Tenho que reagir e lutar por mim, e não por ele . Por mim é que tenho que lutar para mandá-lo a merda que é da onde ele nunca deveria ter saído e para onde deve ir.




Exposição II

O que tem demais em se expor, em expor os sentimentos para alguém ou todo o mundo ver? Nossa sociedade se acostumou em não mostrar as faces das coisas, mostramos o ódio a indignação, a raiva mas não podemos expor o amor. As pessoas se sentem mal quando dizemos que nos expomos, parece que sentem vergonha por nós. Mas quem se expõe não sente vergonha. Ao contrário, do que se pensa o indivíduo que se expõe sabe o que está fazendo e as vezes isso é uma estratégia dele. Por que tantos indivíduos buscando a fama num big brother . Como certeza eles não tem a mesma intenção que uma mulher apaixonada ao gritar aos 7 ventos o seu amor, mas de certa forma a exposição é igual.
O medo de ser julgado, e dito ridículo penso ser o que de certa forma inibe as pessoas que pensam em se mostrar, independentemente da forma escolhida para essa amostragem. Por outro lado, aquele indivíduo que se mostra apenas para o ser amado, pode até correr mais riscos. Sim,porque fica vulnerável na mão daquele que ama. E sujeito a todo tipo de sentimentos contraditórios.
Todo artista se mostra, precisa disso para viver, pois precisa do público. O artista só existe para o público, um artista sem público seria o mesmo que um rio sem água , tem o caminho mas não tem o que dá fluidez, o que dá a força o que faz o rio ser propriamente um rio, com águas diferentes a cada curva, com margens diversas, com terrenos desconhecidos a cada momento.
Assim o pintor precisa de quem veja sua pintura, o escritor necessita que leiam seu livro, o escultor quer alguém admire sua obra. Mas e o amor, quem quer ver?.
Na verdade, ele necessita que outro o veja, para que de repente desperte algum sentimento.
O artista não pede que amem sua obra, assim como o amante não deve pedir o amor. Amor dizem o sábios não se pede, se conquista e a conquista de um sentimento é algo involuntário, não existe mecanismo de fazer brotar em alguém o amor pelo outro, ou se tem, ou se desperta, mas somente só. O despertar é algo que se dá na solidão, e não com o exercício. Até podemos fazer algo renascer, mas é porque já existia, caso contrário é difícil.
Muitas estratégias podem ser feitas com esse fim, mas sempre se parte de uma pré potencialidade para a coisa.


A transformação


Algo acontece com a personagem nesse momento. Ela sabe que está em pleno olho do furacão. Naquele espaço onde nada pode ser compreendido pelo que aparenta ser.Tudo é o que é naquela forma, e pode não ser nada mais no momento seguinte. As coisa, a vida vai acontecendo mas a personagem necessita de alguma forma entender e racionalizar e se mexer. Pois se tem um movimento é porque tem vida, tem energia, seja ela qual for.
E isso pode atingir o ponto do absurdo. Ela busca a paz mas não sabe conviver com ela. Os fluxos de pensamento a levam para um lugar inimaginável como uma tontura sem muito equilíbrio . Sem equilíbrio tudo tende a declinar, para qualquer lado.
Ela hoje tem o que a incomoda. A presença constante daquela lembrança. Lembrança arredia, misteriosa,medrosa. O medo do transformar. Ela sente medo de transformar-se. Ela tem medo do mudar, embora mude todo tempo, muda por fora e não por dentro.
Tudo muda todo tempo, o rio muda a cada água , a vida , as relações, nada é igual o tempo todo, por isso é vida. Se fosse tudo parado não seria vida, seria seu inverso morte. Mas até a morte é movimento, sim, para o renascer.
Esse confronto rotineiro com a razão a enlouquece. Tem medo de enlouquecer com seus devaneios. Chega ao ponto em que o limite entre a loucura e o padrão se perdem. Sabe-se normal, todos dizem, mas sabe-se louca, ensandecida pelas bipolaridades da alma.
Ser bipolar, ter dois lados poderia ser normal, quando se tem disso um bom senso. Entretanto, quando todos rogam pelo ser mono-polar, ela se embate num universo transfigurado pelo “non sense”.
Mas o que é o non sense, é a perda de tudo, e é o melhor de tudo, sem sofrimento é a libertação do espírito para o que transmuta de matéria para não matéria. Do concreto vazio, para o cheio abstrato. E isso é o que da prazer de sentar e criar, tudo que não faz sentido para quem não sente o imenso vazio.

Let it be
13/06/2004
Grande canção. Sábia canção. Deveria ser o hino de todos que sofrem de amor ou por amor. A mágica está em saber quando esta frase se torna real e concreta. Quando uma mulher deixa de amar um homem e o larga de mão e entende que é preciso deixa-lo ir, para poder ir.
Amar nunca foi simples, relacionar é complicado, tudo que diz respeito a vida e amor é controverso. Sábias palavras são aquelas que não são ditas mais sentidas. Não adianta dizer sem sentir. Dizer, se diz a todo momento. Sentir é que de fato concretiza o dizer.
Minhas teorias me diziam sempre que era preciso deixar sempre ir, porém eu, apesar de dizer, me apegava tão fortemente ao meu objeto que ele não se desgarrava de mim. Anos a fio, quis deixa-lo ir mas não abria a porta ou a janela para ele . Até o momento em que consegui realizar esse ato. Naquele dia abri porta e janelas do meu ser e respirei a brisa gostosa da tranqüilidade de estar no extremo vazio do ser. Sabia que algo muito importante estava por acontecer, que daquele momento em diante, minha vida tomaria um novo senso.
Eu comigo me bastava e me bastaria. Toda a tranqüilidade que queria , agora conseguiria, tinha paz e amor dentro de mim, e respirei a vida que me tinha negado durante tanto tempo. Senti a paz de caminhar entre espaços brancos, sem rumo, livre, e leve. Um fado tinha sido descarregado. Só restava agora a sensação da liberdade em minha alma. Sabia o que já sentira e o que agora poderia ser.
Peças e mais peças de vida são o que nos movem em nossos labirintos, e na busca de entendermos o que nos acontece, nos perdemos nas emoções dessa jornada sem luz, dessa dor maior que a própria dor. A dor da culpa nos corroia e já não nos corrói mais. Dito isso vemos nosso próprio filme, e deixamos a fita rolar para nos observarmos de perto.
Lógica não existe, só existem sensações que são de êxtase nesse momento. Êxtase sem drogas. Êxtase de palavras e verbos. De repente um medo vestido de vento rompante cruza a estrada quente, o espaço branco. Porém não persistirá, fechamos a página e o raciocínio se afugenta, não mas me dominará esse sentimento de dor, perda, e culpa. Quero agora deixar estar, desligar, desencanar, e somente, simplesmente, ir sem mais pensar, planejar, esperar. Só ir deixando estar...



A disciplina
17/06/2004
Ao estudar a Doutrina do Buda tenho me deparado com algo bastante interessante. O mestre fala da importância de se viver o presente deixando o passado e o futuro, àquele deixamos para o que foi, que não podemos mudar, e este deixamos para o momento em que se será. Outra coisa que diz o mestre é sobre a questão de termos de educar a mente e isso se faz prestando atenção a tudo que fazemos e sentimos, em todos os níveis: mentais, dos sentidos e corporais.
Todo esse ensinamento tem me feito pensar muito, e de certa maneira é o que venho exercitando, capengamente, com o meu sentimento em relação a essa perda que tive.
Desde que me propus a escrever, meu objetivo estava pautado em dois pilares. Um era o fato de eu querer que o objeto do meu amor soubesse o que eu estava passando e sentindo, toda dor , toda alegria e tristeza, toda a falta e saudade que dele eu sentia. Todo e qualquer pensamento era milimetricamente esmiuçado e investigado por mim, também falava dele e das nossas coisas em comum e ainda analisava o que tinha acontecido pois, ao saber disso tudo, eu esperava que ele atentasse ,ou pensasse que a melhor maneira era estarmos juntos, e tentava fazer descortinar para ele tudo aquilo que sucedeu para que ele acordasse e visse que o amor poderia sobreviver a catástrofe que se deu e me procurasse para tentarmos nos reconciliar. Eu jamais o acusava ou tratava mal porque tinha medo de ser agressiva e perder, em vez de ganhar. Dava minhas impressões de vida e falava da saudade, acho que só.
O outro pilar de meu objetivo era pautado no fato de eu querer de qualquer forma registrar tudo que estava vivendo e sentindo. Acho que meio incentivada por Rahel , porque se não fizesse isso enlouqueceria, tamanha necessidade de me expressar. Outras vezes fiz assim, enchia vários cadernos com essa minha verborragia. Dessa vez, no entanto, escolhi o próprio objeto perdido para compartilhar comigo desse processo. Não sei explicar o porquê dessa escolha, talvez mais uma vez, influenciada pela Rahel e por uma necessidade de expor-me a ele e deixa-lo a par do que tinha acontecido. Ou talvez para puni-lo pelo que sucedera, não sei o que de fato eu queria, além de me colocar e tentar traze-lo de volta.
Conquistá-lo pela palavra, uma vez que eu sabia, e sei ,que ele gosta de ler o que escrevo e dá imenso valor. Mas sei que a intenção que eu tinha não deu resultado, pois ele jamais respondeu uma carta que fosse . De verdade, não espero qualquer resposta, sei que ele jamais o fará pois pelo que me consta, deve pensar que se o fizer estará alimentando minhas esperanças e isso ele não deseja. Já que não deseja me fazer sofrer. Tem ainda certo cuidado.
Porém agora, a situação está para mim mais complicada. Necessito da mesma maneira escrever, vou escrever um livro, me propus. Mas tenho vontade de escrever para ele, continuar na mesma cegueira. Talvez mais uma vez eu esteja no processo de retroalimentação, achando que uma carta vai mudar o que ele sente, o seu desejo.
Embora eu saiba que isso não acontecerá pois até agora ele jamais se manifestou.
Meu desejo se fragmenta em dois e posso, seguindo a Doutrina observa-lo, eu tenho agora imensa vontade de escrever para ele e procura-lo, por outro lado eu também tenho o desejo de sair dessa encruzilhada e andar para frente. Observo meu presente e me sinto dividida , como sempre, ir e não ir, escrever e mandar ou escrever e não mandar, é como se o não mandar fechasse a porta para uma possibilidade. Só que conscientemente sei que essa possibilidade não existe e jamais existiu.
O que vivo agora é a constatação dessa divisão. E quero ser disciplinada para seguir a razão e não a impulsão, ou seja, não mandar a ele o que escrevo, não ligar e cumprir o que disse na última carta. Porém, minha mente fica a deriva e busca formas de tentar entrar em contato, numa obsessão compulsiva. Chego achar que isso é doença, e de fato deve ser.
O pensamento é recorrente, a figura dele vai e vem todo o tempo de minha mente. Estou mesmo procurando desviar, não pensar, mas é quase impossível de fazê-lo.
Procuro então fazer como diz a meditação deixá-lo como nuvem, que ele passa sem que eu dê muita importância. Talvez isso resulte algo mais concreto.
Sei que tudo passa, que já passei por isso antes, mas é insuportável essa sensação. Quero me adestrar, me disciplinar, mas isso não acontece do dia para noite, estou procurando e me educando, educando minha mente para ela não se desviar. Mas a danada escorrega pela minha disciplina.
De tudo, o que quero agora e para sempre é ter força para não retomar o que fazia antes, a compulsão, não dar espaço a ela. Tudo bem que eu escreva, mas não posso mandar,nem retransmitir emails,nada. É o pior exercício, já passei por momentos assim no ano passado e acabei sendo derrotada. Mas agora não quero mais ser derrotada por minha compulsão, quero vencê-la. Preciso vencê-la. Já não suporto mais isso tudo que ocorre no meu pensamento e essa idéia doentia de que ele vai voltar.
É um pensamento de maluco, que briga com a minha razão o tempo todo. Porra, sou demasiado racional para me deixar envolver por isso, que nada mais é do que parte de minha compulsão e desejo. Porém, é um desejo que deve ser reprimido pois só me faz sofrer pois não pode ser concretizado, está sob o interdito dele(objeto do meu amor).
Então o que fazer, além de esperar passar. Acho que é não dar bola e me policiar para não mandar nada.
O mais engraçado disso, se é que posso dizer que tem graça, é também observar a atitude das pessoas em relação as minhas atitudes, todos acham que eu sempre estava errada, que não deveria me expor, nem mandar nada. Que deveria cortar toda e qualquer relação com família etc.Todos acham que exposição faz mal, é falta de amor próprio, eu de verdade não acho isso, talvez as pessoas não sintam a mesma necessidade de expressão. Pode ser.
De qualquer maneira, agora vou fazer o que todos acham que devo fazer, e que eu agora acho, não escrever para ele e não mandar.
Durante esses 2 anos e meio, jamais ele ficou sem uma notícia minha,nem quando estive em outro país . Confesso que no íntimo tem algo(que não queria admitir,mas preciso porque estou me disciplinando a observar tudo, tudo mesmo) de esperança também nessa atitude de não mandar. Olha a mente se adaptando, buscando subterfúgios para não apaga-lo. O que intimamente se passa? Bem, se pelo excesso ele não pensou, talvez pela falta ele pense, ao se ver privado do que eu lhe mandava, talvez ele se manifeste. Homens tem alguma característica nesse sentido, querem caçar e não querem perder. Imagina que eu até, imaginariamente, senti ele mais próximo da última vez , com um olhar diferente. Minha razão me diz que isso é ilusão e que eu não devo acreditar nessa ilusão.
O fato é que estou registrando o que sinto de verdade, se é ilusão ou não, é o que passa na minha mente, e tenho os dois lados para discernir isso. Me deixo enganar porque sou tola, porque vejo as coisas. É o auto engano.
Me passa pela mente; e minhas cartas?, ou cartas dele, que tanto quero.Deveria eu cobrar, ou deixar para lá?. Já cobrei na última vez que o vi.Acho que ele não me dará e não tenho condições de refazê-las. Eu as queria tanto.
Talvez ele saiba que essa é uma maneira de me ter a atenção. Me pergunto, para que que ele as quer?. Para que ele quer algo meu, meus sentimentos naquela carta. Cartas não são nada, ele não as lerá. Para que quer guardá-las?. Não entendo e tenho medo de uma louca mulher dele joga-las fora. Embora saiba que ele não deixará, mas sei lá louco de paixão ele acaba jogando fora.
Ele é esquisito, mais que eu. Eu disse a ele que não é para remoer as coisas que as quero. Ele faz que me dará, mas não se mexe.
Isso me deu uma grande angústia, um grande medo. De qualquer forma, deixa estar, ainda não estou escrevendo disciplinadamente o livro, talvez em agosto, pós tese o faça. Aí verei como recuperar o que é meu.
Foi bom escrever sobre isso, é assim que farei sempre, escreverei e analisarei cada pensamento para mim mesma, e não para ele. Talvez ele saiba disso quando eu publicar e ele tiver interesse em ler. 17/06/2004.


dia a dia
24/06/2004
Nada mais convencional e amedrontador do que um dia após o outro quando buscamos esquecer, quando temos que deixar de lado um grande amor para podermos prosseguir.
O doloroso está em a todo momento buscarmos um outro sentido que seja diverso daquele que foi intencionado por você quando junto, quando casal. O ter que refazer os projetos , ter que olhar para frente, sem o outro ,é como se nos tivessem tirado , propriamente uma parte.
Talvez existam pessoas que pensam e pesam isso diferente, que não dão tanta importância . Porém a maioria das mulheres age assim, talvez porque as mulheres tenham mais apego ao lar, a continuidade das relações, ao companheirismo, a tudo e não só ao sexo. O fato é que para mulheres certos dias de melancolia profunda são mais desesperadores que outros.
Nossos hormônios nos encaminham para esse confim de desestruturação pessoal. Vemos tudo com olhos tão minuciosos, tão sensíveis que chegamos nos achar exageradas diante do resto dos outros seres.
Nesses dias razão não existe, somos pura emoção, ilusão e dor e até anúncio de margarina nos faz chorar, já disse alguém. Mas o que fazer? É coisa da vida, da existência, e temos que mesmo deixar passar, sabendo no entanto o que nos faz sentir assim. São épocas, que nos levam ao caos e muitas vezes tomamos atitudes precipitadas por isso.
Por mim, sei que ajo mal, e sei que já fui capaz de coisas que não deveria nesses dias. O que fazer então? quando a vida ou as pessoas se aproveitam dessas decisões de precipitação. Não posso mais nada fazer, o exacerbar de uma emoção me fez passar e sentir o que ora vinha sentindo. Só que agora tenho mais consciência de tudo. E na realidade, só me resta mesmo esperar o tempo passar, esperar o dia passar e esperar o amor passar para poder amar de novo e finalmente exercitar o aprendizado do amor.




Aprendizado do amor 24/06/2004 Eu nunca soube amar, e só agora já balzaquiana fui capaz de descobri isso. Pensando bem, eu nunca soube me relacionar porque sempre esperava muito mais das pessoas e de mim mesmo. Em todos os relacionamentos tive momentos de crise, tudo bem, isso é comum, entretanto, em tais momentos, quando meu sofrimento despontava e eu jamais soube o que acontecia comigo. Sentia o outro longe, distante, não mais interessado, só que na verdade isso se dava comigo e não com o outro, o outro sempre soube que existe diferença entre as fases de um relacionamento. Mas eu, eu não sabia. Pensava que tudo deveria ser igual o tempo todo. Magia, sedução, paixão durante toda a vida só que não é. Ou melhor, não é da forma que eu esperava. Existe sim, todas essas coisas, mas não com a intensidade absurda do que vai acabar amanhã. Como a explosão de uma estrela com luz irradiante de mesma força todo o tempo.
Para chegar ao que de fato existe é preciso tempo e atenção. A atenção é fundamental, já nos diz o Buda , é preciso que estejamos atentos sempre, para perceber que tipo de relacionamento é o nosso, que tipo de amor estamos tendo, e ao sabermos isso sabemos tudo, temos a condução do nosso agir.
O que importa num amor, não é só de fato amar, mas saber amar. É o que poucos de nós sabemos. Falamos muito nisso, esbanjamos livros e doutrinas, mas não aprendemos.Lemos muito mas aquilo não entra na nossa mente, simplesmente porque nossa sociedade há milênios prega o amor diverso daquele verdadeiro, puro ou artificial, depende do ponto de vista,pois se civilizar-se é criar uma existência diversa da natural, então também o amor que conhecemos não é o natural, mas apenas mais uma forma imposta pela civilização.
Na verdade, o que nos interessa é o amar e ser amado, e o sentido que damos a isso em nossas vidas, somado a importância do estar junto.
Tem gente que não sente essa importância, prefere outros bens, tem gente por outro lado, que só pensa nisso : como amar e ser amado. Talvez esses sejam dotados de uma carência infinita, que nem a psicanálise daria conta de explicar, porém se prestarmos de fato atenção veremos que grande parte da sociedade moderna busca esse amar e ser amado.
É uma necessidade tão forte que se mistura às necessidades biológicas e fisiológicas , como o comer e o beber que são fundamentais para o sobreviver.
Assim, como é tão difícil de se ter é tão difícil de se compreender. Já diziam: a dor do não saber é pior do que a própria dor do sentir. As interrogações ferem mais, doem mais do que a certeza e a negação, assim como o desprezo fere mais que o ódio.
Enfim, sejamos assim mesmo eternos pensantes de nosso próprio sentir.
Descontrole 1/07/2004 Naquela manhã ela acordara cedo, o dia estava lindo, cheio de vida e com a vida as lembranças e saudades. Pegou o telefone ligou e escutou a voz de seu desejo sem controle, mandou-lhe mas uma vez, uma mensagem. Mas uma para a sua coleção de mensagens não respondidas.Deixou estar, foi para a vida, se movimentou e agiu. Fez seu dia belo, mesmo sem estar com quem de fato queria.
Na outra manhã o mesmo aconteceu, certas fases do mês quando o controle se torna mais complicado de ser exercido. Não ligou para casa, dessa vez foi para o trabalho, ninguém respondia, ressaca da derrota do time do coração. Ela precisava escutar aquela voz, mesmo para nada falar, apenas para escutar a simples palavra, alô. Ela sabia que isso era uma compulsão que ele poderia desconfiar, mas homens são meio dementes, não associam muito, o que dava a ela certa folga, e certeza do anonimato. Um erro dos sistemas de telefones, ligações perdidas, quedas de linha. Tudo isso ela sabia que pouco acontecia, mas rezava para o outro não achar o mesmo. Pois só assim poderia continuar ligando sem medo de ser descoberta por ele.
Racionalizando não sabia até quando isso continuaria. Tocava sua vida mas isso a acompanhava.Sabia não sofrer mais como antes, mas isso ainda era um entrave. Sabia que ele jamais a procuraria, mas no fundo ainda sonhava e desejava aquele homem como no primeiro dia. O que fazer se o problema não depende de nós para ser resolvido. Esperar passar, nos dizem todas as forças do universo.


Cicatrização
26/07/2004

Quando estamos em processo de cicatrização, toda volta para casa depois de uma viagem é sempre meio dolorosa. Dolorosa porque quando estamos passeando esquecemos nossas dores latentes e olhamos o mundo com outro colorido, disponíveis para qualquer atividade, para qualquer coisa que nos possa entreter, porém quando retornamos percebemos que a vida não tem, no dia a dia, todo aquele colorido das viagens, ela tem cor, é fato , mas na viagem sua cor é mais forte.
O encontro com o cotidiano nos faz sentir tédio quando não estamos principalmente, amando. Amando que eu digo é amando e sendo amado, sim porque pior que tédio do dia a dia é o amar e não ser correspondido.É uma barra. Queremos aquele “um” a qualquer preço e ele não nos quer. Que fazer?
Aí, são sabias as palavras que dizem, espera que o amor cicatriza.
Será que o amor cicatriza?. Começo a achar que sim. Cicatriz não some, fica ali para toda vida, com um tratamento ela atenua sua forma, mas não some . Deixa de sangrar como ferida aberta, mas se mantém sempre latente. E quando algo acontece, que te faz olhar para a cicatriz , ela às vezes lateja.
Latejar faz parte do processo de cicatrização, não escorre sangue, jamais escorrerá,mas faz da gente refém de uma marca imortal.
Um dia quando criança cortei o dedo de uma forma muito profunda. Tinha uns sete anos, abriu-se em meu dedo um corte que quase retirou sua ponta. Tal corte demorou a fechar, cicatrizou mas a marca jamais saiu. Toda vez que olho minha mão lembro do que foi aquela marca. Assim, como eu vinha dizendo, é a dor de amor. Ela fecha, cicatriza e nós não mais choramos a toa por ela. Entretanto, ela não nos abandona. Ser apaixonado por alguém que não nos quer é como ter cicatriz em uma parte do corpo a qual olhamos todos os dias.
Achamos que temos tudo para fazer aquela pessoa feliz e nos fazer feliz ,mas a vida nos separou e nos resta apenas a cicatriz, somos obrigados a conviver com ela.
Certas cicatrizes demoram, mas o tempo apaga. Porém outras que rompem as fibras da pele não são jamais apagadas, embora lutemos com a cosmética para que isso aconteça.
Acho que o legal é você ter cuidado para não ferir no mesmo lugar, porque aí sangra por demais ,é ponto mais sensível. Por isso devemos pensar muito no que ocasionou a cicatriz e avaliar e analisar para não nos ferirmos de novo. Não repetirmos os mesmos erros que nos conduziram àquelas marcas.
Bem, eu sou assim, minhas feridas demoram para fechar, demoram a cicatrizar e sempre me deixam marcas profundas. Porém sempre tenho esperança de corrigir os erros que me trouxeram aquelas marcas, elaboro, elaboro, elaboro, mas infelizmente a vida nem sempre me dá a chance de acertar com a mesma pessoa com quem errei. Paciência, agora espero chegar o dia em que não quererei mais isso.


Caixa de emails
28/07/2004
Dia de limpeza, ela abre no seu computador todos os programas que jamais abrira, todos os out look que anteriormente recebiam suas mensagens e pelos quais ela resolvera enviar algumas que nunca conseguiu.
Se depara de repente com algumas mensagens do seu antigo amor. Emails impessoais do ano em que se separaram. Quanto tempo já faz. Lembrando por baixo já se tem dois anos e meio, ou mais precisamente, dois anos e quatro meses. No último ano ele nada mandou. Ela estava distante, em outro continente e ele, nunca lhe respondia às cartas ou mensagens. Uma grande ausência daquele que ela julgava ser seu par inesquecível. Porém já não podia mais estar assim. As mensagens lhe fizeram ver o passado, a dor, mas não sentia raiva daquele ser. De alguma maneira sentia que ele ainda estava perdido, desorganizado em sua existência. Será que algum dia se organizaria. De certo ela não estaria junto para vê-lo se organizar. Não porque não quisesse, mas por que ele não queria.
Chegava a pensar que o natural dele era ser esse ser atípico, desterritorializado, desorganizado, triste. Esse era o seu normal. Ele sabia o quanto era desordenado, o quanto aquilo atrapalhava sua vida mas não sabia como resolver, não ousava. Jamais ousou, e apesar disso, como ela podia amá-lo tanto, mesmo sabendo de seus defeitos.
Talvez por isso ela o amasse pois achara alguém normal, alguém que não era mais idealizado por ela, que não era perfeito na sua imaginação. Tinha sim defeitos e muitos, mas tinha também qualidades que ela agora sabia ver. Parâmetros, são sempre importantes para vermos o que nos cerca. Sem eles somos forçados a aceitar e a se acostumar, as vezes, com o que existe de pior. Ao contrário também, só vemos o bom quando observamos o que existe fora do que vivemos.
Assim foi com ela, não que ela pudesse dizer que era feliz e não sabia, não é isso, porque quando se foi estava tudo muito ruim, muito triste, muito amargo. Porém com o tempo e a compreensão ela sentiu que se precipitou e aí era tarde. Ela queria corrigir, mas ele não a queria. A todo momento, ela se repetia isso para não cair na tentação de retroalimentá-lo dentro dela. Para não viver acossada por uma esperança que ela não sabia da onde vinha.
Nessas mensagens guardadas ela viu o quanto ele lembrou decompromissadamente dela, lembrou sem que a lembrança fizesse qualquer diferença para ele. Ele no fundo era frio, independente, egoísta, ela sabia, mas isso não eliminava o que ela sentia. Sempre soube disso, só não sabia da imaturidade dele, da falta de atitude e de humildade para dar uma nova chance a ela.
Ela agora não mais escrevia para ele, ele continuava a mandar email coletivo, para ela e toda a torcida do flamengo, ela não respondia mais. Nem repassava qualquer outro email que recebesse. A última carta fora conclusiva, ela sabia que devia se segurar, se limitar, não procurar, não lembrar, não pensar, ela sabia tudo, e também só ela sabia o quanto executar isso lhe era difícil . Pensava ligar e desistia na hora, milhões de vezes, milhões de desistências no meio do caminho. Talvez ele percebesse, talvez não, como perceber, sem a identificação numérica, ela se sentia segura, mas se ele tivesse o identificador . Ela estaria ferrada. Mas que fazer. Jogar com a sorte?. Se o desejo de ouvi-lo é maior, brinca-se com a sorte.
Aquela ferida estava cicatrizando, mas ela mesmo assim sabia que era culpada pela lenta cicatrização. Ela sabia que no fundo ela ainda o esperava. Só alguém para retira-la desse dilema, dessa inércia. E enquanto esse alguém não surgisse ela se contentava em ir vivendo, ir criando e se acostumando a gerir sua vida sem estar apaixonada e sem ser alvo da paixão de alguém. Sentia-se melhor quando amava e era amada , mas a vida não é o que pensamos que ela é.
E ele não a quer, e disso ela tem sempre que ser lembrada, para pedir que a ferida se feche, cicatrize e ela possa enfim viver bem e ser feliz, mesmo sem ele.



Desespero atemporal
6/7/2004
São duas pessoas as que habitam a minha mente perturbada .Mente de mulher, é bem verdade. E tenho dúvida se homem se perturba assim quando está se curando de um amor. Homens são mais práticos nesse sentido, se deu, deu, se não deu, adeus. É, invejo essa capacidade de se desvencilhar das mulheres. Para eles a coisa se resume a mais um corpo e basta, substituem sem problemas uma por outra e bye bye. Talvez eu tenha sido exagerada, pode ser que tenha homem diferente, mas, dei o azar de cair na armadilha de um que era exatamente assim. Na verdade, homens são rígidos demais, e por isso inflexíveis, é característica Dele e deles. Mas não quero constatar o que todos já constataram, quero falar do desespero que se estabelece de vez em quando. Tenho prestado atenção aos sentimentos como jamais o fiz e percebo que vem chegando o fim do processo de cicatrização, quando nem mesmo a presença Dele mexerá com um músculo sequer de minha face. Esse é um glorioso momento, já acontece, findou-se a ansiedade, a dor no estômago, a dor posterior. Tudo parece enfim estar adormecido. Porém tem dias que parece que o quadro se reverte, já tive isso antes.
E percebo agora o quanto ele anda sobre a minha cabeça, indiferente, (e já teve tempo de eu achar que isso poderia ser algo de positivo que ele sentia) e digo, se existe justiça divina esse indivíduo ainda sofrerá muito de amor, para aprender a ser mais gente e menos insensível. A praga é minha e de qualquer mulher.
Isso ela dizia, foi assim, dessa forma ela pensava enquanto caminhava pela rua depois de um encontro inesperado na casa de uma pessoa amiga. Sentia-se bem, no entanto o homem não se aproximava, ao contrário chegava a fugir, como num desespero de quem deve algo e teme ser um dia cobrado, como um devedor de agiotas que sabe ter a vida marcada com aquela eterna perturbação, até a morte.
Mas qual seria a dívida dele? ela se perguntava. Ele foi quem jamais questionou a decisão tomada, mesmo não tendo sido Ele o tomador, mas era cômodo não decidir e deixar que ela decidisse . Sentimentos não contavam para Ele, ela pensou, planos, Ele não os tinha, pois tinha assimilado os dela, vida com toda sua complexidade, Ele também desconhecia, não fora acostumado a isso, a pensar sobre o que sentia e a tomar pé dos seus sentimentos.
Mas que espécie de homem era ele? um abjeto de uma sociedade corroída pelas desilusões. Um ser que suprimia sua dor e sua alegria pois não gostava de mostrá-las, um homem que se via diverso na frente do espelho, ele via o que ele não era e agia como se fosse.
Suas conversas eram torpes, falsas, porque ele não se sabia quem ser. E ela, ela justificava tudo, tinha milhões de razões para desculpa-lo. Mas para que desculpa-lo? Chegara a hora de enfim condena-lo dentro de si. Já passara o tempo, estava cansada demais para lutar, exausta para compreender o que não tinha compreensão, e alguém lhe disse, liberta-te a ti mesmo, liberta teu sexo que tua libertação mental aparece, não guarde para ele o que ele não quer e nunca quererá porque simplesmente não sabe, nem saberá o que é querer. Deixa dias e dias que nada aconteça e de repente o dia chegará e verás que ele não passará de um nada, uma vaga lembrança,sem esperança e desprezível como todas as outras que já se foram com a mesma dor.
Enfim, tudo é uma questão de ter dor e saber da dor que se sente e deixa-la simplesmente,passar.

domingo, 9 de novembro de 2008

Encontro com Clarice

Quando encontrei Clarice, ela não estava na sua melhor forma. Tinha se desgastado muito, vivia confusa e isso transparecia o tempo todo em tudo que dizia. Sua face era cortada, mas tinha um ar de desilusão, um quê de não compreensão.
Não tinha o mistério que eu esperava, mas tinha a sensação de inconformidade, de inquietação.
Eu tinha 24, ela não sei quanto tinha, mas nos demos bem, muito bem. Em pouco tempo passei a tirar dela tudo que precisava para minha existência tumultuada. Tudo que ela me dizia, era como se eu mesmo tivesse dito, eu mesmo tivesse constatado.
Ficamos amigas, embora certas horas isso me custasse um desnorteamento.
Minha mente cartesiana, se convulsionava, com seus pensamentos que eram os meus. Seus amores invisíveis eram os meus, todas as dores que ela tinham pareciam e eram as minhas. Eu ao mesmo tempo que entendia, não entendia, mas estava ali. querendo vivê-las.
E foi, tempos mais tarde, quando tudo retomou o eixo convencional, me senti menos amiga, mas não menos cúmplice dela. Afastei-a temporariamente e elegi novos amigos, mais tradicionais, menos bipolares, mais centrados na vida e menos no que é a vida. Questões práticas me cooptaram.
Existência com grandes sentidos e sem sentido. Discursos de realidade mas não menos de dor. Fui.
Esqueci nosso contato, perdi seu endereço. Caminhei anos a fio sem lembrar que ela estava ali. Longe e ao mesmo tempo perto.
Hoje vi sua foto. Sua imagem me fez recordar e me fez pensar . Me fez finalmente lembrar que eu estava ainda no mesmo lugar que a tinha deixado.
Abracei-a com força.

parte de mim

Falei  que estava em processo para minhas amigas. Eu tenho muitas  e quase todas sabem dos meus sofrimentos  , das angústias etc. Sabem das ...