terça-feira, 3 de setembro de 2024

parte de mim

Falei  que estava em processo para minhas amigas. Eu tenho muitas  e quase todas sabem dos meus sofrimentos  , das angústias etc. Sabem das dores de amor que se repetem ao longo da vida. Mas não sabem tudo. Não elas não sabem. Algumas poucas talvez, e que eu scho que não sei quem são.
Talvez  porque não possuem escuta.  Me veem sofrendo, mas não consegue entender meu processo. Também pudera , nem eu entendo.   Algumas criticam, tiram por si mesmas  as coisas. Filtram pelo seu próprio filtro e  não conseguem lidar com questões que as vezes remetem a elas mesmas.
Algumas escondem sentimentos  ou querem ser dogmáticas para a sua vida. Não para delas.
Muitas eu me afasto quando assim ocorre. E  vivo, sem nada falar.
Creio que  na minha última história, essa mesmo que  comecei contando, eu com  medo de ser reprimida não tive coragem de tentar dialogar sobre. Na verdade nem falei. Talvez pensem ainda que estou viajando para encontrar o antigo homem da não vez.
Outras amigas abro meu coração , essas talvez menos centradas  em si mesmo.
Eu fiz terapia muitos anos.  E não vou ser leviana em dizer que não serviu.  Entretanto, eu não consegui sair durante  todos esses anos do círculo de emoções e sensações iguais em todo relacionamento que entro.
 Tudo que eu escrevia e dava a eles para ler,os psicólogos,nunca liam. E era ali que eu estava. Não  era nadinha na minha fala, que se resumia a falar  dos  homens da vez.  M, P, G, GG,  A de novo.  Esses que  foram mais presentes desde 1993.
Alguns entre esses ,nada sério.
No entanto,  porque preciso agora debuma anamnese. Sendo eu mesma a minha construção.  Mas quero enfrentar de verdade essa massa coesa, ou fragmentada que sou. Porque eu não sei o que sou.  Eu não sei o que sinto.  E vou me empurrando toda vida tangenciandobo abismo de emoções diárias.
Culpando os caras que fugiram de mim. Mas deixando de ver o quanto na maioria das vezes eu já estava insatisfeita.
Eu acho, que eu idealizo demais, e jamais  alguem chegará ao que idealizei, que também eu confesso que não saberia descrever como é.



 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

A conversa

Depois de uma simples conversa de prática religiosa pelo Msn, pois não se tem coragem de faze-lo em viva voz, o personagem solta uma pérola cheia de grosseria e mágoa. Num tom imperativo o personagem manda _ Estuda Kardec que você vai entender. Como se ele já fosse o expert no assunto com duas semanas de leitura, pois tem a fé. Senti pelos fios invisíveis da internet o rancor indevido, mágoa destilada, vociferada como jamais imaginei. Pergunto-me o que fiz a esse personagem para ele agir assim, para ter tanta mágoa justo com quem mais o ajudou e fez tudo por ele. Minha razão e fé, desconfiam desses personagens que usam a busca pelo divino para concentrar mais amargor e mais tristeza. Sim, porque diante de um comportamento desse, com tamanha falta de tato e tamanho rancor só pode estar se gerindo dentro uma doença e não uma cura, a treva e não a luz. Não vejo ali o espírito de compaixão, a gentileza dos espíritos luminosos e nem dos seres iluminados, seja em que nível for. O processo é hereditário, é doentio, e não digo isso porque fui desprezada, depois de ter feito de tudo, mas porque é assim mesmo. O que foi feito de forma abnegada, de forma incondicional durante todo tempo, esse personagem não vê, talvez nunca veja, porque só vê a si mesmo. Se foi descontentado por uma coisinha mínima fez daquilo o amargor de toda vida. E pisou e desprezou. E culpa quem o ajudou. Desconsidera tudo que fizeram por ele, e por isso, por não saber ter gratidão, por não saber deixar de ter mágoa, por ser falsamente um ser amável é que ainda tem muito que aprender. Se as lições de Kardec conseguirem tirar dali a máscara do orgulho, da prepotência e da arrogância já será um grande ganho para a próxima encarnação. No entanto, só com São Tomé. O que mais acontece é a fuga na fé, é a alimentação superficial que tampa os erros e não enxerga a realidade e responsabilidade, em vez de autoconhecimento e conscientização, vem uma alívio superficial, uma falsa paz que se deteriora na primeira discussão mostrando o que de fato é. Lamento muito pelo personagem. Infelizmente a leitura é essa. Não acredito que possa mudar. Quem deve mudar sou eu e esquecer que o personagem existe. 19/12/2017

Meu encontro com Brad Pitt (1)

Mas um dia de quarentena, 6 de maio de 2020, se casada fosse comemoraria 19 anos, como não sou, somente lembrei da data na hora de escrever. Já passava de cinquenta dias o lockdown e sempre na mesma hora, para manter a rotina, eu tomava meu cafezinho sentada na sala diante de alguma coisa que passava na TV. Naquele dia não foi diferente quando escuto a frase: _ “Você poderia ser ela”, parei, e como num ímpeto respondi: _ “Sim eu poderia” . Foi aí que Brad deu um sorriso e sentou-se ao meu lado. Diante do inusitado da cena ofereci-lhe um café e ele aceitou. Começamos a conversar, Brad não conhecia o Rio de Janeiro, não conhecia nada, nem mesmo o café que achou com um gosto forte. Na conversa chegamos à janela, e do alto do morro de Santa Teresa onde moro eu mostrava para ele as direções da cidade maravilhosa. _ Olhe para a esquerda vemos o caminho Niemayer, lá é Niterói, para chegar temos que atravessar essa ponte que você vê em frente, ela fica sobre a Bahia de Guanabara. Aquelas montanhas lá longe com um formato de dedo é o Dedo de Deus, Brad olhou-me estranho, mas na hora não me toquei, lá é a Serra dos órgãos, em Teresópolis e Guapimirim. -A esquerda tá vendo a imensidão de casas e prédios, ali é o que chamamos de subúrbio e sobre aquela colina que fica no meio do mar de casas, hoje está bem claro, vemos a igreja da Penha, bem alta que para chegar temos que subir muitos degraus,365, o número de dias do ano. A cada palavra minha Brad surpreendia-se, a paisagem do alto é muito diferente daquela que vemos da rua e agradava aos olhos olhar a cidade como um drone, planando como um pássaro ao sabor do vento local que vinha do mar. Continuamos na janela um bom tempo a noite já começava a despontar e pequenas luzes já acendiam como estrelas, um azul marinho ia aos poucos tomando conta do céu. _ Olhe agora a frente, Brad, numa reta temos a catedral com essas luzes que mudam de cor, e a esquerda aquele relógio é a Central do Brasil, que não é mais o centro de nada. Também está vendo aquela passagem alta são os arcos da Lapa, ali passa o bondinho que não está funcionando, abaixo o Circo Voador e a Fundição Progresso, se fosse um dia normal veríamos a praça cheia de gente a curtir a chegada da noite no final do trabalho. Brad olhava-me curioso e a cada exposição minha fazia perguntas. Quando cansamos de olhar pela janela voltamos para dentro, a sala já estava escura o que me fez acender o abajur colorido enchendo o ambiente com uma luz diferente. Ele olha a mesa com um quebra cabeças de mil peças pela metade da montagem, sorri e diz que tenho muita paciência. Depois se dirige à estante, se diverte olhando a coleção de São Francisco e tenta imitar cada pose do Santo, sentado, deitado, olhando para cima e para baixo, com a cabeça para esquerda e para direita, braços para o alto e para baixo, ou somente no meio do corpo com um carneirinho na mão. Rimos muito com seu jeito meio sem jeito de representar as posições. Dando um passo para frente, numa rapidez de movimento, ele rodou o globo terrestre iluminado que eu tenho ao lado do sofá, olhamos o mundo como se fosse uma pequena bolinha a ser manipulada por alguém. Saímos da sala tomamos a direção do corredor que leva à cozinha e aos quartos. Ele entra na cozinha e entro junto, a frente na janela são muitos os cactos que eu planto e a esquerda sobre a mesinha de refeições rápidas tem um quadrinho vermelho escrito, apaixone-se. Brad olha o quadrinho e com sorriso maroto seu olhar me invade, explico para ele que é uma forma de se ver a vida, apaixonando-se por ela. A vida é um grande negócio digo eu, já que a vida gosta de quem gosta dela. Minha cabeça não parava, eu ia a cada passo buscando palavras no meu tom professoral para mostrar a ele cada coisa que fazia parte do meu universo pessoal, da minha casa, minhas emoções e sentimentos diante de cada objeto escolhido por mim para habitar aquele espaço. Entramos no quarto do meio, Brad se depara com os quadros na parede e pergunta da dor de uma imagem de um suposto Sebastião presente na pintura de um amigo. Depois de novo ri, quando observa um quadro azul com a imagem disforme do que parece um casal. Explico que esse quadro comprei num brechó que não sabia bem porque havia comprado, mas que tinha achado a imagem bonita. Ele de novo sorriu. Seguimos e chegamos à biblioteca, ali meu espaço de trabalho e também de prazer ao me derramar sobre o conteúdo de cada livro que me traz o mundo de presente. Espaços reais e imaginários que nos alimentam a alma para entender o que a vida nos traz. Brad não deu muita atenção uma vez que o que eu falava demandava a leitura, nenhum livro se mostra sem que tenhamos tempo para ele. Na porta ao lado da biblioteca era meu quarto. Pelo tempo em que estávamos de conversa a escuridão já tomava o lugar, acendi o fio de luz vermelha que fica sobre a cabeceira da cama. Brad me olhava, no que parecia entender e não entender o que se passava na minha cabeça. Pergunto a ele se quer me beijar, ele responde que sim, seu coração bate acelerado sua respiração também. Começo a desabotoar sua roupa, um lindo traje digno de um figurino de Hollywood, até que ele mesmo o faz, suas mãos tímidas repetem as minhas e nos tocamos ao ritmo lento de uma música que somente em nossas cabeças soava. Nos enlaçamos lentamente na atmosfera do quarto, com a penumbra das luzinhas dando um tom misterioso e mágico ao momento, ficamos ali boas horas onde parecíamos nos conhecer de muito tempo. Já era madrugada, quando de repente meus olhos se abriram, vi que estava ainda na sala, a TV ligada baixinho e na tela do netflix a imagem congelada do filme – O encontro.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Abril de 2020

Abril de 2020 -Pandemia mundial 1 Em casa, buscando livros que ajudem na minha pesquisa vem sempre a mesma pergunta, será a que imagem da pandemia será aquela que muitos filmes nos fizeram crer? Será que tanta gente é assim tão visionária a ponto de escrever em um mês livros e mais um monte de estratégias de como fazer nesse momento, ou tudo não passa de um povo que só quer se aproveitar da situação e ganhar um troco a mais. Nada contra, cada um que se guie e faça o que seu ego mandar, e publique o que quiser e como quiser, tanto faz desde que não estrague a massa mais do que ela já está estragada. Não, não tenho visão pessimista, mas aqui da minha janela toda vez que olho fico imaginando aquelas cenas de filmes onde se tem uma terra pós tudo completamente devastada por alguma hecatombe, guerra, meteoro, e o ser humano lutando para sobreviver e deixando aflorar a sua mais cruel e dolorosa feição, do ódio, do lucro, do egoísmo. Hollywood está cheia de exemplos, não vou pagar para vê-los nesse momento, mas é a imagem do “Ensaio sobre a cegueira” a que mais me vem à cabeça, o livro é de José Saramago e o filme do Fernando Meireles. Pensando no filme, vejo que estamos ainda no início, na contaminação. E ela é que vai definir quem fica e quem vai. Lá a comorbidade do vírus não é tão grande, todos ficam cegos, mas ficar cego não mata. Aqui a contaminação também é aterrorizante, mas com o agravante de que o vírus hoje, além de ser transmitido com super velocidade, também mata, mata a todos sem poupar classes, gêneros, credos, raças, idades. Algo assim com tamanha letalidade a ficção não conseguiu fazer. Ultrapassa a nossa capacidade de criação fazer algo que pode nos exterminar, sem que tenhamos um salvador, e talvez por isso, por não conseguir racionalmente dar conta de entender e expressar não consigamos criar. “Melancolia”, filme de Lars Von Trier, talvez seja o que melhor relate o embate onde não sobrará ninguém para contar. Mas o que faz a ficção nesse momento? Faz pensar a realidade. Do alto do meu morro, numa posição privilegiada vejo a cidade e escuto, não me atrevo a sair, nem notícias tenho visto. Mas hoje, sábado, o barulho é maior que de ontem. Parece que tem gente que ainda não se tocou, ou que num ato inconsequente desafia o poder do vírus. Mas também, os exemplos de cima, não censuram o exercício de egoísmo, pelo contrário, até o estimulam. Faz algum tempo que as sociedades vem vendo crescer certos tipos e tribos que desconsideram completamente o que é humanidade. Discursos de tal forma podres que nem tenho palavras para adjetivar, além de podre mesmo. Algo que é tóxico para a espécie e para o planeta, que não serve para nada, e o pior, um discurso que infelizmente agrega gente que se pensa do bem, gente que sequer pensa no porquê da sua indignação, usam uma palavra chave, ‘corrupção’, para fundar a sua filiação a esse discurso, essa mesma palavra cuja ação continua aí, e que é corrente em muitos que defendem a sua extinção. Eu tinha vontade de entrar em certas cabeças para ver qual foi o chip que foi ali implantado, pois sem dúvida a ação é digna de um filme arrebatador que no momento me foge a racionalidade. Alguém um dia falou, uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade( frase batida), e assim foi o que aconteceu nos vários momentos da humanidade, toda história contada é contada a partir de quem estava ali no poder para contá-la, e mesmo quando ela fica sujeita a uma revisão, a mentira introjetada é difícil de sair. Acho que vivemos uma situação assim, e quanto maior a ignorância geral, mais cruel o processo de desinfecção de retirada do vírus. Vejo que socialmente a maneira como certo vírus entrou nossa sociedade é muito semelhante ao percurso do vírus visto na biologia, ele chega, se instala, vai desconstruindo toda estrutura social organizada, contamina tudo, promove um desmonte ,se muda, camufla e vai embora. Parece outra ficção, aquele filme onde os alienígenas vem pegar toda a nossa energia, pois acham que diante do que veem isso aqui não tem resgate, e não temos, pelo menos aqui, nesse momento, alguém que nos de esperança. Mas aí, como que diante do inominável, pequenos atos de esperança começam a ser vistos. A sociedade sem esperar por um Messias falso começa a entender que o discurso era falso, que os planos não existiam, que tudo não passou de uma enganação e começa reagir, a se transformar. Vivemos um momento que ficará na história da humanidade, estamos frente a frente com o acontecimento do século, que embora não saibamos como terminará será um divisor de águas, se quisermos, para esquecermos de muita coisa que fazíamos errado e que precisaremos modificar, que a humanidade tenha olhos para se ver e crescer, sabendo que do jeito que está não dá mais para ficar.

Doença ou vida

A princípio podem as duas coisas do título serem contrárias, mas não são. Nem sei porque digo isso ou faço disso meu título depois de tantos anos sem escrever aqui. Já sei, é porque respondi a um questionário que perguntava isso, se velhice passa ou não a ser doença. Eu acho que não, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas por que essa sensação, vez por outra, de que envelhecer é ruim? Sim é ruim, quando nos são tirados os direito, o trabalho, a possibilidade se ser como gostamos. Não entendo muito bem as cabeças, nem a minha, mas acho que o que sinto é compartilhado por alguns, algumas, todes e por aí vai. Não sei, não seu, não meu, não de ninguém. Alguma coisa não está devidamente no seu lugar. O que é não sei,mas me desconforta, entristece, faz não achar e ficar amuada, estranha. O tempo passou , a vida passou, o dia acabou, só a porra da pandemia ficou junto com o inominável.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Personagem

O personagem:

Homem  meia idade:  conversa com um amigo - Sim,   uma desculpa qualquer faz a  idiota  cair na minha lábia,    sim ela é generosa,  é só eu contar uma historinha qualquer de que passei fome, de que tô nervoso, de que não estou bem, que ela cai. Vai lá me recebe, aceita a  minha fragilidade, inventada???, e fica tudo bem. Ganhei o dia, posso viver na minha ilha bem, sem maiores problemas, indo ao meu bar favorito, tomando meu drink favorito, indo a casa de amigos, conversando o dia todo. Afinal não quero mais saber de nada, trabalhei muito cedo, tive responsabilidades mil, agora quero é curtir a vida. Um barco, cuja responsabilidade de gastos eu não tenho, pago o cara, porque não sei remar. Curto a vida, fumo meu baseado,  dou chilique quando a coisa fica preta, grito para chamar atenção, faço cena de teatro para acreditarem que estou possuído, sou histérico  consciente. O que me atinge? Acho que nada, filhos  tê-los e  não sabe-los, não os crio, não os vejo, responsabilidades delas que os quiseram. Namorada, melhor coisa é a distância, meio chata, mas chega junto quando preciso. Nem tenho crédito no telefone para não ter obrigação de ligar   todo dia, nem que eu precise para o negócio, que precisaria, mas o que vem daqui dá para o gasto. No fim, a vida é muito boa, ela me enche o saco  para me tratar, mas tratar de quê? Tô bem, para que tratar. Tudo é o  discurso que faço . Encontro-a de vez em quando , chego para descansar da vida. Digo que tô mal e  pronto, nem sexo faço, nem precisa. Ela cobra e eu  conscientemente digo que não. Não tenho condições, ai ela se inibe, boa técnica  a minha. E assim vou levando a vida.  É ou não é  uma boa?     O amigo o olha meio sem entender. A pessoa é jovem, e com uma determinação de fazer gosto, determinação de quem não se importa com os outros, de quem finge o que não é, e fantasia a vida, fantasia  tudo.  

domingo, 7 de maio de 2017

Domingo no Rio

Domingo dia de descanso, quando recuperamos a bateria.
O que fazer nessa cidade tão linda e tão conturbada?  Vamos ver...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Azul - revendo

Azul

Acordara sozinha com raios de luz que penetravam pela janela refletindo o azul da cortinas, estava calor e o sol forte anunciava que já era tarde, do lado da cama, no criado mudo, um pequeno pedaço de papel mostrava um bilhete.
Ficou pensando sem se mover, não se lembrava daquele papel, pensou no dia por vir e logo veio à mente uma sensação estranha.
Jamais procedera daquela forma, deixar que seu corpo a levasse sem medir as consequências, não sabia quem era aquele homem, nunca o tinha visto até aquele dia num simpósio onde ele era o palestrante, porém isso não importava, sentia-se atraída pela sua fala mansa, pelos seus gestos precisos, pelo seu corpo, do qual se via apenas parte do braço descoberto pela manga da camisa dobrada, disfarçando a fina penugem castanha que cobria sua pele clara que não chegando com ela a contrastar. Suas mãos eram como um suave prolongamento de seus braços que conduziam sua fala num gesticular envolvente. Seus movimentos irradiavam pura energia e o brilho de seus olhos misturavam calor e sedução junto do desassossego de suas pernas ao andar pela sala enquanto falava, não fixava o olhar que parecia procurar algo além das palavras que ouvia saírem de sua própria boca.
Tudo começou quando pensara em ir cumprimenta-lo após a palestra. Era tímida e isso fazia-lhe insegura, bloqueava suas ações mas não o seu desejo. Ao olhar aquele homem sentia-se arder, sua boca tornava-se seca e seu rosto quente, tentava caminhar e seus pés não se moviam, estava atordoada, tinha medo que todos a olhassem, que falassem dela, que percebessem sua aflição e isso a incomodava, olhava incessantemente para os lados dissimulando as atitudes. Correria esse risco? Temeu não ser notada, ser mais uma entre as dezenas de homens e mulheres que dele se aproximavam .
E se ele a desprezasse? Estaria preparada? Sua educação tinha sido repressora, em casa, escutava a mãe a dizer-lhe que não deveria expor seus sentimentos, nem se submeter as paixões, mas não se tratava disso, não eram seus sentimentos que estavam em jogo, já poderia se permitir viver aquela situação, porém,  e se não valesse a pena? Se sentiria fácil,volúvel e teria que carregar essa culpa, esse peso em sua consciência,o que nem o tempo poderia apagar. Entretanto, no íntimo, já havia decidido, se arriscaria, pelo menos dessa vez.
Foi, ele terminara a palestra e guardava suas coisas, quase todos já o tinham cumprimentado, ela cumprimentou-o e depois de convida-lo, saíram para um café que ficava a poucos metros da sala de conferência. Lá, o burburinho de vozes não deixava que um ouvisse o outro, melhor assim, ela estava nervosa, não sabia o que dizer, nem o que fazer, só sabia que estava agindo impulsivamente e nunca fizera aquilo antes. Sua voz que era suave estava trêmula, procurava não demonstrar sua ansiedade. Pediu um chocolate com whisque, nunca bebera, mas sabia que o álcool a relaxaria e daria segurança que precisava para ir adiante. Tomou o chocolate e o calor em sua boca já a fez sentir-se mais leve e estimulada. Sugeriu então um outro local. O homem olhou-a surpreso e ela corou, sentiu-se atrevida e a dúvida novamente se fez presente, pensava no que poderia acontecer, sabia que nem todas as pessoas entenderiam, quem a apoiaria? Oscilou entre retirar a proposta ou confirma- la, seus pensamentos se confundiam,sentia no sangue em suas veias um imenso calor. Teve vontade de se desnudar por inteiro, sem medos ou vergonha, vontade de dançar suavemente embalada pela canção que soava em sua mente excitada. Queria seduzir aquele homem por completo, fazendo com que ele lhe desse todo prazer que nunca sentira, continuou.
Saíram do bar, ganharam a rua, na noite quente e estrelada soprava uma brisa calma que vinha do mar e arrepiava todos os corpos numa mistura de frio e prazer, ela levou-o ao seu apartamento, mesmo lugar onde agora ela se encontrava pensando no que fora sua noite, no quanto havia sido afoita, e no grande prazer que sentira.
Sentou-se na cama e olhou no espelho que ficava em frente, pelo reflexo viu o bilhete de poucas linhas que estava ao lado, receou em pegá-lo. O que teria escrito? Não sabia como tinha se deixado levar. Lembrou então que seu desejo era incontrolável e que havia se abandonado a ele. Olhou outra vez para o espelho e agora fitou sua própria imagem nele refletida, não era feia, e a sensualidade transbordava de seu corpo de forma muito natural tornando-a bastante atraente, gostava disso,mas, nesse momento o que importava era o bilhete,não possuía coragem para ler o que estava escrito, talvez por medo.
Encheu-se de firmeza e tomou então o bilhete em uma das mãos, levou-o aos olhos e leu. Era um lembrete que ela mesma havia feito para não se esquecer da palestra que aconteceria naquele dia à noite.








domingo, 15 de dezembro de 2013

imagens substituem palavras????

Chega um tempo que parece que as palavras são substituídas por imagens perdidas, imagens da memória , do inconsciente, non sense. Talvez esteja chegando a hora de retornar, rever, verbalizar outra vez para não se perder a importância da linguagem.




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terça-feira, 26 de março de 2013

Elocubrando em torno da questão





“ Deus!, Oh deus! Onde estais que não responde!!!”, Em que lugar fui me enfiar desta vez. A cada dia um verso novo, que nada me diz e tudo me necessita dizer.
Quem fez este programa? Quem mistura a geografia com a escrita, o meu querido diário com a resenha técnica. A liberdade do ensaio com reconfigurações do tempo e do espaço. Minha vida transformar-se–a num drama e toda a torcida do flamengo, ali presente para compactuar sabe-se lá com o que, ou quem.
Quero o meu CPF, tem fronteira para a ficção? Tem ruptura para o gênero? Qual gênero? o híbrido que tá na moda, o clássico, o medieval, ou o do renascimento? Quem sabe me dizer?
Se ninguém sabe, eu mesmo sei. Jogam-me na cabeça uma gramática da narrativa, conto, romance, crônica, que mais, quem dá mais, falta o híbrido da questão. Quem fez isto? Cortem -lhe a cabeça, diria o coelho apressado, que corre da Alice.
Mas não termina aí, tem mais labirinto para eu me perder, tem mais arte, tem mais social, onde fica o museu, e a biblioteca? Para que eles servem em épocas de internet? não falaram que o senhor google é o sabe tudo da hora. Não contaram que técnica e poética, arte e reprodutibilidade, quer dizer que aquele cara morreu tentando fugir da Europa, enquanto Hitler matava todo mundo, que o cara acabou jogando sua aura no lixo, na lama, e quase que seus papeis acabam indo mesmo pra boca do lixo. Quem fez isto? Qual é a teoria do romance e do drama? Quem vai dessa vez decretar a crise de verso o fim do poema; Mallarmé, Agamben, francês ou italiano, “fois gras” ou macarrone afrancesado e vamos dançando,pois a subjetividade moderna e as práticas culturais são mesmo pra lá a Síria; não há Bashar al-Assad que de conta de tanta coisa, com tanto nome esquisito. Mas pra que esclarecer, se podemos complicar.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Avulsos




Desespero

Quando ela ligou pela última vez, tudo que eu queria era que o tempo corresse, a ligação caísse, ou o mundo acabasse para eu não ter que falar mais uma vez que não a queria.
Sempre fui assim, gostava de alimentar a ilusão das mulheres que saiam comigo, causar-lhes uma frustração e ficar nelas marcado como uma tatuagem que não sai facilmente, pois subcutânea minha tinta só sairia com cirurgia.
Vivi 20 anos com a mãe dos meus filhos, vivi simplesmente, maritalmente, não tínhamos o molde convencional, pelo menos diante de nós, já que diante da família conservadora não éramos tão diferentes. Tínhamos relações extra-conjugais, mas não muitas, o número suficiente para nos sentirmos vivos dentro do casamento e para criarmos nossos filhos.
Quando decidi me separar, eu já apresentava as características que agora tenho, queria me tornar recluso como o escritor, e viver para mim mesmo, de preferência sem interferência de ninguém. Eu, meus livros, minha pesquisa. Não achava que isso era algo de mais, nem de menos, apenas não queria de novo me sentir preso a uma situação e a alguém, já me bastavam os filhos.
Perto dos meus 50 anos, achava que já tinha vivido quase tudo, restava a mim poucos anos para terminar algumas coisas que queria deixar, meu livro e alguns outros escritos.
Desenvolvi por esse tempo um comportamento estranho. Sozinho em meu apartamento minhas pernas pareciam não mais querer andar, com uma contusão já curada, que insistia em ser problema. Era então fevereiro, final de verão quando eu não saía de casa, só lendo, escrevendo, quando ela reapareceu.
O peso dos 50 me assolavam, embora os médicos não registrassem qualquer patologia física. Já nos conhecíamos. Há 12 anos eu era um jovem professor num lugar que não era o meu, com uma língua que não era a minha, quando fui convencido, através de um conto seu, que tudo poderia ser azul, me encantei com seu jeito e me tornei seu amigo,ela tinha uma idade que nunca se modificou, parecia ter sempre, vinte e poucos anos. Eu sabia da sua inocência infantil, da sua forma expansiva e alegre de lidar com a vida, e não me importei com o que eu poderia representar para ela.
Fomos amigos no período de um curso e depois nossos encontros foram ao acaso. Quando me separei procurei por ela e pedi o que era impossível, tudo, sem afeto. Ela sumiu. Ficamos anos, talvez meses sem nos ver, mas ela escrevia querendo saber como eu estava. Eu sempre respondia e a convidava, ela às vezes vinha, às vezes não.
O tempo passou e nunca nos encontrávamos mais de um dia, ela sempre que vinha sumia, e eu não ligava, esperava ela ligar. Nunca quis entende-la pois julgava já saber o que ela pensava.Certas horas me irritava e me deixava acuado, mas compensava o prazer que me dava.Quando ela não vinha, eu tinha namoradas dizia a ela.
Então um dia ela reapareceu.Veio e ficou. Manda e-mail indecente e sugestivo, eu correspondo, a recebo por meses, ela entra em minha vida, é meu melhor dia da semana.
Eu começo a andar, minhas pernas não doem, minhas aulas fascinam os alunos, faço planos para mudar de casa, vejo a vida, o movimento ao meu redor, volto a praticar esportes, minha performance na cama me surpreende. Mas não saio com ela, ela vem a mim, e a prendo em minha casa, não a divido com ninguém, eu a sufoco, não com beijos, mas com teorias que a deixam tonta, e ela me ama, me come, me massageia o ego e o corpo.
Quando ela sai está exausta, pesada, confusa e eu leve, satisfeito, em forma para um homem com a minha idade. Me vicio, a vicio.
Até que eu, além de sufocá-la, passo a restringir seu tempo comigo, restrinjo sua forma de amor, sua fala, seus gestos, sua alegria, reprimo-a no que posso. Ela fica confusa, some por dias, reaparece, diz que não suporta. Explode e diz a mim o que eu fingia não ver e não ouvia, sou mais para ela do que eu achava que era.
Não aguento o que ouço, decido que não mais . Ela me procura, me liga, me passa e-mail. Não volto atrás, digo que tudo termina. Ela contesta, mas eu não a aceito.
Já tenho 54 anos, não vou mudar, sou o que sou, um estrangeiro, talvez eu morra amanhã, depois de aprontar meu livro, talvez eu volte para meu país, talvez eu fique doente, talvez eu seja doente, ela não me interessa, já tenho mais de cinquenta, o tempo para mim passou. E agora, agora é esperar.

 

 Caixa de e-mail


Fazia tempo que todos os dias olhava na caixa de e-mail as mensagens que tinha recebido. Todos os dias acossava-o o mesmo receio de encontrar de novo um e-mail indesejado.
Antes só se comunicava com ela por e-mail, gostava de receber as cartas e bilhetes virtuais indecentes, que sugeriam uma boa rodada de prazer. Mas com o tempo, depois que ela disse que era apaixonada por ele, a vontade passou, como numa mágica qualquer. Conquistara finalmente o objeto de prazer, então ele não mais serviria para tirar-lhe da seca sexual.
Depois do dia da revelação, pediu a ela não mais o procurasse. Ela desobedeceu, como era de esperar. Ligou várias vezes, ele atendia, incomodamente atendia. Até que um dia parou de atender, deixou de responder aos e-mails, lia o que ela mandava e mais nada.
Uma vez ela mandou um e-mail que parecia tirar-lhe do sério. Não dizia nada, nem nada dizia, não falava indecências, nem convidava para sair, era uma crônica diária, crônica de saudade, respeitosa, que pedia um sinal de vida, apenas.
Não aguentou. O peso de algo que não sabia o que era, fez responder de forma arrogante e taxativa. -Porta fechada, Deixe-me tranquilo. Tenho namorada, firme.
Aquilo seria o suficiente para ela desistir. Não sem antes faze-lo sentir-se ridículo pelo que tinha escrito, chamando-lhe desequilibrado e não civilizado.
Um ato infantil. Fora amedrontado por um bilhete virtual, que poderia ser deletado a qualquer momento, sem leitura que fosse. Ridículo, pela falta de sociabilidade, por se esconder por trás de um suposto namoro sério, por trás de um medo absurdo que o remetia de novo a ela.
Fechou os olhos depois que leu, mas uma vez não sabia como lidar com ela. Fechou a caixa de mensagem. Ela não mais escreveu. Toda dia ele olhava sua caixa, achando que um dia ela pode mudar de ideia. Vive ansioso toda vez que vai ao seu provedor.

terça-feira, 1 de maio de 2012

“Coisas de mulher”


1/05/2012

Comecei um novo blog, “Coisas de mulher”. Talvez eu coloque algo que fique mais próximo  das pessoas. O dia-a-dia, as imagens, as coisas que são e não são  do nosso universo feminino conturbado.
Algo assim leve, as coisas de mulherzinha. Como já disse  faz tempo.   
Todas queremos ser mulherzinhas, indistintamente.
Fazer o que dá na telha, comprar o que é mais fútil. Ter enorme preocupação com a unha e com a depilação. Pensar o dia inteiro no homem da vez, quando ele está mesmo na vez. Muitos dizem que não é isso coisa de mulher interessante, é de mulher fútil que não tem o que fazer. Tudo uma grande mentira, para minar a coisa mínima de que é feita a vida.
As grandes preocupações só sobrevivem se as mínimas estiverem no lugar. Sem essas pequenas as grandes não existem. Por isso essa série vai falar disso, das pequenas coisitas básicas do nosso dia-a-dia, que fazem também literariamente a vida ser o que é.

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quarta-feira, 25 de abril de 2012


 
Sem Título

Estou seca,
Lembranças são passados inexistentes.
A voz é fanhosa pelo choro contido.
O corpo envelhecido pelo tempo.
Onde vamos?
Onde estamos?
Qual nossa máquina  principal?
Coloco graxa de sapato na engrenagem mais importante que range:
Never more,never more,never more...

parte de mim

Falei  que estava em processo para minhas amigas. Eu tenho muitas  e quase todas sabem dos meus sofrimentos  , das angústias etc. Sabem das ...