Desespero
Quando
ela ligou pela última vez, tudo que eu queria era que o tempo corresse,
a ligação caísse, ou o mundo acabasse para eu não ter que falar mais
uma vez que não a queria.
Sempre fui assim, gostava de alimentar a
ilusão das mulheres que saiam comigo, causar-lhes uma frustração e ficar
nelas marcado como uma tatuagem que não sai facilmente, pois subcutânea
minha tinta só sairia com cirurgia.
Vivi 20 anos com a mãe dos meus
filhos, vivi simplesmente, maritalmente, não tínhamos o molde
convencional, pelo menos diante de nós, já que diante da família
conservadora não éramos tão diferentes. Tínhamos relações
extra-conjugais, mas não muitas, o número suficiente para nos sentirmos
vivos dentro do casamento e para criarmos nossos filhos.
Quando
decidi me separar, eu já apresentava as características que agora tenho,
queria me tornar recluso como o escritor, e viver para mim mesmo, de
preferência sem interferência de ninguém. Eu, meus livros, minha
pesquisa. Não achava que isso era algo de mais, nem de menos, apenas não
queria de novo me sentir preso a uma situação e a alguém, já me
bastavam os filhos.
Perto dos meus 50 anos, achava que já tinha
vivido quase tudo, restava a mim poucos anos para terminar algumas
coisas que queria deixar, meu livro e alguns outros escritos.
Desenvolvi
por esse tempo um comportamento estranho. Sozinho em meu apartamento
minhas pernas pareciam não mais querer andar, com uma contusão já
curada, que insistia em ser problema. Era então fevereiro, final de
verão quando eu não saía de casa, só lendo, escrevendo, quando ela
reapareceu.
O peso dos 50 me assolavam, embora os médicos não
registrassem qualquer patologia física. Já nos conhecíamos. Há 12 anos
eu era um jovem professor num lugar que não era o meu, com uma língua
que não era a minha, quando fui convencido, através de um conto seu, que
tudo poderia ser azul, me encantei com seu jeito e me tornei seu
amigo,ela tinha uma idade que nunca se modificou, parecia ter sempre,
vinte e poucos anos. Eu sabia da sua inocência infantil, da sua forma
expansiva e alegre de lidar com a vida, e não me importei com o que eu
poderia representar para ela.
Fomos amigos no período de um curso e
depois nossos encontros foram ao acaso. Quando me separei procurei por
ela e pedi o que era impossível, tudo, sem afeto. Ela sumiu. Ficamos
anos, talvez meses sem nos ver, mas ela escrevia querendo saber como eu
estava. Eu sempre respondia e a convidava, ela às vezes vinha, às vezes
não.
O tempo passou e nunca nos encontrávamos mais de um dia, ela
sempre que vinha sumia, e eu não ligava, esperava ela ligar. Nunca quis
entende-la pois julgava já saber o que ela pensava.Certas horas me
irritava e me deixava acuado, mas compensava o prazer que me dava.Quando
ela não vinha, eu tinha namoradas dizia a ela.
Então um dia ela
reapareceu.Veio e ficou. Manda e-mail indecente e sugestivo, eu
correspondo, a recebo por meses, ela entra em minha vida, é meu melhor
dia da semana.
Eu começo a andar, minhas pernas não doem, minhas
aulas fascinam os alunos, faço planos para mudar de casa, vejo a vida, o
movimento ao meu redor, volto a praticar esportes, minha performance na
cama me surpreende. Mas não saio com ela, ela vem a mim, e a prendo em
minha casa, não a divido com ninguém, eu a sufoco, não com beijos, mas
com teorias que a deixam tonta, e ela me ama, me come, me massageia o
ego e o corpo.
Quando ela sai está exausta, pesada, confusa e eu leve, satisfeito, em forma para um homem com a minha idade. Me vicio, a vicio.
Até
que eu, além de sufocá-la, passo a restringir seu tempo comigo,
restrinjo sua forma de amor, sua fala, seus gestos, sua alegria,
reprimo-a no que posso. Ela fica confusa, some por dias, reaparece, diz
que não suporta. Explode e diz a mim o que eu fingia não ver e não
ouvia, sou mais para ela do que eu achava que era.
Não aguento o que
ouço, decido que não mais . Ela me procura, me liga, me passa e-mail.
Não volto atrás, digo que tudo termina. Ela contesta, mas eu não a
aceito.
Já tenho 54 anos, não vou mudar, sou o que sou, um
estrangeiro, talvez eu morra amanhã, depois de aprontar meu livro,
talvez eu volte para meu país, talvez eu fique doente, talvez eu seja
doente, ela não me interessa, já tenho mais de cinquenta, o tempo para
mim passou. E agora, agora é esperar.
Caixa de e-mail
Fazia
tempo que todos os dias olhava na caixa de e-mail as mensagens que
tinha recebido. Todos os dias acossava-o o mesmo receio de encontrar de
novo um e-mail indesejado.
Antes só se comunicava com ela por
e-mail, gostava de receber as cartas e bilhetes virtuais indecentes,
que sugeriam uma boa rodada de prazer. Mas com o tempo, depois que ela
disse que era apaixonada por ele, a vontade passou, como numa mágica
qualquer. Conquistara finalmente o objeto de prazer, então ele não mais
serviria para tirar-lhe da seca sexual.
Depois do dia da revelação,
pediu a ela não mais o procurasse. Ela desobedeceu, como era de esperar.
Ligou várias vezes, ele atendia, incomodamente atendia. Até que um dia
parou de atender, deixou de responder aos e-mails, lia o que ela
mandava e mais nada.
Uma vez ela mandou um e-mail que parecia
tirar-lhe do sério. Não dizia nada, nem nada dizia, não falava
indecências, nem convidava para sair, era uma crônica diária, crônica de
saudade, respeitosa, que pedia um sinal de vida, apenas.
Não
aguentou. O peso de algo que não sabia o que era, fez responder de forma
arrogante e taxativa. -Porta fechada, Deixe-me tranquilo. Tenho
namorada, firme.
Aquilo seria o suficiente para ela desistir. Não sem
antes faze-lo sentir-se ridículo pelo que tinha escrito, chamando-lhe
desequilibrado e não civilizado.
Um ato infantil. Fora amedrontado
por um bilhete virtual, que poderia ser deletado a qualquer momento, sem
leitura que fosse. Ridículo, pela falta de sociabilidade, por se
esconder por trás de um suposto namoro sério, por trás de um medo
absurdo que o remetia de novo a ela.
Fechou os olhos depois que leu,
mas uma vez não sabia como lidar com ela. Fechou a caixa de mensagem.
Ela não mais escreveu. Toda dia ele olhava sua caixa, achando que um dia
ela pode mudar de ideia. Vive ansioso toda vez que vai ao seu provedor.