domingo, 20 de novembro de 2016
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Azul - revendo
Azul
Acordara sozinha com raios de luz que penetravam pela janela refletindo o azul da cortinas, estava calor e o sol forte anunciava que já era tarde, do lado da cama, no criado mudo, um pequeno pedaço de papel mostrava um bilhete.
Ficou pensando sem se mover, não se lembrava daquele papel, pensou no dia por vir e logo veio à mente uma sensação estranha.
Jamais procedera daquela forma, deixar que seu corpo a levasse sem medir as consequências, não sabia quem era aquele homem, nunca o tinha visto até aquele dia num simpósio onde ele era o palestrante, porém isso não importava, sentia-se atraída pela sua fala mansa, pelos seus gestos precisos, pelo seu corpo, do qual se via apenas parte do braço descoberto pela manga da camisa dobrada, disfarçando a fina penugem castanha que cobria sua pele clara que não chegando com ela a contrastar. Suas mãos eram como um suave prolongamento de seus braços que conduziam sua fala num gesticular envolvente. Seus movimentos irradiavam pura energia e o brilho de seus olhos misturavam calor e sedução junto do desassossego de suas pernas ao andar pela sala enquanto falava, não fixava o olhar que parecia procurar algo além das palavras que ouvia saírem de sua própria boca.
Tudo começou quando pensara em ir cumprimenta-lo após a palestra. Era tímida e isso fazia-lhe insegura, bloqueava suas ações mas não o seu desejo. Ao olhar aquele homem sentia-se arder, sua boca tornava-se seca e seu rosto quente, tentava caminhar e seus pés não se moviam, estava atordoada, tinha medo que todos a olhassem, que falassem dela, que percebessem sua aflição e isso a incomodava, olhava incessantemente para os lados dissimulando as atitudes. Correria esse risco? Temeu não ser notada, ser mais uma entre as dezenas de homens e mulheres que dele se aproximavam .
E se ele a desprezasse? Estaria preparada? Sua educação tinha sido repressora, em casa, escutava a mãe a dizer-lhe que não deveria expor seus sentimentos, nem se submeter as paixões, mas não se tratava disso, não eram seus sentimentos que estavam em jogo, já poderia se permitir viver aquela situação, porém, e se não valesse a pena? Se sentiria fácil,volúvel e teria que carregar essa culpa, esse peso em sua consciência,o que nem o tempo poderia apagar. Entretanto, no íntimo, já havia decidido, se arriscaria, pelo menos dessa vez.
Foi, ele terminara a palestra e guardava suas coisas, quase todos já o tinham cumprimentado, ela cumprimentou-o e depois de convida-lo, saíram para um café que ficava a poucos metros da sala de conferência. Lá, o burburinho de vozes não deixava que um ouvisse o outro, melhor assim, ela estava nervosa, não sabia o que dizer, nem o que fazer, só sabia que estava agindo impulsivamente e nunca fizera aquilo antes. Sua voz que era suave estava trêmula, procurava não demonstrar sua ansiedade. Pediu um chocolate com whisque, nunca bebera, mas sabia que o álcool a relaxaria e daria segurança que precisava para ir adiante. Tomou o chocolate e o calor em sua boca já a fez sentir-se mais leve e estimulada. Sugeriu então um outro local. O homem olhou-a surpreso e ela corou, sentiu-se atrevida e a dúvida novamente se fez presente, pensava no que poderia acontecer, sabia que nem todas as pessoas entenderiam, quem a apoiaria? Oscilou entre retirar a proposta ou confirma- la, seus pensamentos se confundiam,sentia no sangue em suas veias um imenso calor. Teve vontade de se desnudar por inteiro, sem medos ou vergonha, vontade de dançar suavemente embalada pela canção que soava em sua mente excitada. Queria seduzir aquele homem por completo, fazendo com que ele lhe desse todo prazer que nunca sentira, continuou.
Saíram do bar, ganharam a rua, na noite quente e estrelada soprava uma brisa calma que vinha do mar e arrepiava todos os corpos numa mistura de frio e prazer, ela levou-o ao seu apartamento, mesmo lugar onde agora ela se encontrava pensando no que fora sua noite, no quanto havia sido afoita, e no grande prazer que sentira.
Sentou-se na cama e olhou no espelho que ficava em frente, pelo reflexo viu o bilhete de poucas linhas que estava ao lado, receou em pegá-lo. O que teria escrito? Não sabia como tinha se deixado levar. Lembrou então que seu desejo era incontrolável e que havia se abandonado a ele. Olhou outra vez para o espelho e agora fitou sua própria imagem nele refletida, não era feia, e a sensualidade transbordava de seu corpo de forma muito natural tornando-a bastante atraente, gostava disso,mas, nesse momento o que importava era o bilhete,não possuía coragem para ler o que estava escrito, talvez por medo.
Encheu-se de firmeza e tomou então o bilhete em uma das mãos, levou-o aos olhos e leu. Era um lembrete que ela mesma havia feito para não se esquecer da palestra que aconteceria naquele dia à noite.
Acordara sozinha com raios de luz que penetravam pela janela refletindo o azul da cortinas, estava calor e o sol forte anunciava que já era tarde, do lado da cama, no criado mudo, um pequeno pedaço de papel mostrava um bilhete.
Ficou pensando sem se mover, não se lembrava daquele papel, pensou no dia por vir e logo veio à mente uma sensação estranha.
Jamais procedera daquela forma, deixar que seu corpo a levasse sem medir as consequências, não sabia quem era aquele homem, nunca o tinha visto até aquele dia num simpósio onde ele era o palestrante, porém isso não importava, sentia-se atraída pela sua fala mansa, pelos seus gestos precisos, pelo seu corpo, do qual se via apenas parte do braço descoberto pela manga da camisa dobrada, disfarçando a fina penugem castanha que cobria sua pele clara que não chegando com ela a contrastar. Suas mãos eram como um suave prolongamento de seus braços que conduziam sua fala num gesticular envolvente. Seus movimentos irradiavam pura energia e o brilho de seus olhos misturavam calor e sedução junto do desassossego de suas pernas ao andar pela sala enquanto falava, não fixava o olhar que parecia procurar algo além das palavras que ouvia saírem de sua própria boca.
Tudo começou quando pensara em ir cumprimenta-lo após a palestra. Era tímida e isso fazia-lhe insegura, bloqueava suas ações mas não o seu desejo. Ao olhar aquele homem sentia-se arder, sua boca tornava-se seca e seu rosto quente, tentava caminhar e seus pés não se moviam, estava atordoada, tinha medo que todos a olhassem, que falassem dela, que percebessem sua aflição e isso a incomodava, olhava incessantemente para os lados dissimulando as atitudes. Correria esse risco? Temeu não ser notada, ser mais uma entre as dezenas de homens e mulheres que dele se aproximavam .
E se ele a desprezasse? Estaria preparada? Sua educação tinha sido repressora, em casa, escutava a mãe a dizer-lhe que não deveria expor seus sentimentos, nem se submeter as paixões, mas não se tratava disso, não eram seus sentimentos que estavam em jogo, já poderia se permitir viver aquela situação, porém, e se não valesse a pena? Se sentiria fácil,volúvel e teria que carregar essa culpa, esse peso em sua consciência,o que nem o tempo poderia apagar. Entretanto, no íntimo, já havia decidido, se arriscaria, pelo menos dessa vez.
Foi, ele terminara a palestra e guardava suas coisas, quase todos já o tinham cumprimentado, ela cumprimentou-o e depois de convida-lo, saíram para um café que ficava a poucos metros da sala de conferência. Lá, o burburinho de vozes não deixava que um ouvisse o outro, melhor assim, ela estava nervosa, não sabia o que dizer, nem o que fazer, só sabia que estava agindo impulsivamente e nunca fizera aquilo antes. Sua voz que era suave estava trêmula, procurava não demonstrar sua ansiedade. Pediu um chocolate com whisque, nunca bebera, mas sabia que o álcool a relaxaria e daria segurança que precisava para ir adiante. Tomou o chocolate e o calor em sua boca já a fez sentir-se mais leve e estimulada. Sugeriu então um outro local. O homem olhou-a surpreso e ela corou, sentiu-se atrevida e a dúvida novamente se fez presente, pensava no que poderia acontecer, sabia que nem todas as pessoas entenderiam, quem a apoiaria? Oscilou entre retirar a proposta ou confirma- la, seus pensamentos se confundiam,sentia no sangue em suas veias um imenso calor. Teve vontade de se desnudar por inteiro, sem medos ou vergonha, vontade de dançar suavemente embalada pela canção que soava em sua mente excitada. Queria seduzir aquele homem por completo, fazendo com que ele lhe desse todo prazer que nunca sentira, continuou.
Saíram do bar, ganharam a rua, na noite quente e estrelada soprava uma brisa calma que vinha do mar e arrepiava todos os corpos numa mistura de frio e prazer, ela levou-o ao seu apartamento, mesmo lugar onde agora ela se encontrava pensando no que fora sua noite, no quanto havia sido afoita, e no grande prazer que sentira.
Sentou-se na cama e olhou no espelho que ficava em frente, pelo reflexo viu o bilhete de poucas linhas que estava ao lado, receou em pegá-lo. O que teria escrito? Não sabia como tinha se deixado levar. Lembrou então que seu desejo era incontrolável e que havia se abandonado a ele. Olhou outra vez para o espelho e agora fitou sua própria imagem nele refletida, não era feia, e a sensualidade transbordava de seu corpo de forma muito natural tornando-a bastante atraente, gostava disso,mas, nesse momento o que importava era o bilhete,não possuía coragem para ler o que estava escrito, talvez por medo.
Encheu-se de firmeza e tomou então o bilhete em uma das mãos, levou-o aos olhos e leu. Era um lembrete que ela mesma havia feito para não se esquecer da palestra que aconteceria naquele dia à noite.
domingo, 15 de dezembro de 2013
imagens substituem palavras????
Chega um tempo que parece que as palavras são substituídas por imagens perdidas, imagens da memória , do inconsciente, non sense. Talvez esteja chegando a hora de retornar, rever, verbalizar outra vez para não se perder a importância da linguagem.
..
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terça-feira, 26 de março de 2013
Elocubrando em torno da questão
“ Deus!, Oh deus! Onde estais que não responde!!!”, Em que lugar fui me enfiar desta vez. A cada dia um verso novo, que nada me diz e tudo me necessita dizer.
Quem fez este programa? Quem mistura a geografia com a escrita, o meu querido diário com a resenha técnica. A liberdade do ensaio com reconfigurações do tempo e do espaço. Minha vida transformar-se–a num drama e toda a torcida do flamengo, ali presente para compactuar sabe-se lá com o que, ou quem.
Quero o meu CPF, tem fronteira para a ficção? Tem ruptura para o gênero? Qual gênero? o híbrido que tá na moda, o clássico, o medieval, ou o do renascimento? Quem sabe me dizer?
Se ninguém sabe, eu mesmo sei. Jogam-me na cabeça uma gramática da narrativa, conto, romance, crônica, que mais, quem dá mais, falta o híbrido da questão. Quem fez isto? Cortem -lhe a cabeça, diria o coelho apressado, que corre da Alice.
Mas não termina aí, tem mais labirinto para eu me perder, tem mais arte, tem mais social, onde fica o museu, e a biblioteca? Para que eles servem em épocas de internet? não falaram que o senhor google é o sabe tudo da hora. Não contaram que técnica e poética, arte e reprodutibilidade, quer dizer que aquele cara morreu tentando fugir da Europa, enquanto Hitler matava todo mundo, que o cara acabou jogando sua aura no lixo, na lama, e quase que seus papeis acabam indo mesmo pra boca do lixo. Quem fez isto? Qual é a teoria do romance e do drama? Quem vai dessa vez decretar a crise de verso o fim do poema; Mallarmé, Agamben, francês ou italiano, “fois gras” ou macarrone afrancesado e vamos dançando,pois a subjetividade moderna e as práticas culturais são mesmo pra lá a Síria; não há Bashar al-Assad que de conta de tanta coisa, com tanto nome esquisito. Mas pra que esclarecer, se podemos complicar.
terça-feira, 31 de julho de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Avulsos
Desespero
Quando
ela ligou pela última vez, tudo que eu queria era que o tempo corresse,
a ligação caísse, ou o mundo acabasse para eu não ter que falar mais
uma vez que não a queria.
Sempre fui assim, gostava de alimentar a ilusão das mulheres que saiam comigo, causar-lhes uma frustração e ficar nelas marcado como uma tatuagem que não sai facilmente, pois subcutânea minha tinta só sairia com cirurgia.
Vivi 20 anos com a mãe dos meus filhos, vivi simplesmente, maritalmente, não tínhamos o molde convencional, pelo menos diante de nós, já que diante da família conservadora não éramos tão diferentes. Tínhamos relações extra-conjugais, mas não muitas, o número suficiente para nos sentirmos vivos dentro do casamento e para criarmos nossos filhos.
Quando decidi me separar, eu já apresentava as características que agora tenho, queria me tornar recluso como o escritor, e viver para mim mesmo, de preferência sem interferência de ninguém. Eu, meus livros, minha pesquisa. Não achava que isso era algo de mais, nem de menos, apenas não queria de novo me sentir preso a uma situação e a alguém, já me bastavam os filhos.
Perto dos meus 50 anos, achava que já tinha vivido quase tudo, restava a mim poucos anos para terminar algumas coisas que queria deixar, meu livro e alguns outros escritos.
Desenvolvi por esse tempo um comportamento estranho. Sozinho em meu apartamento minhas pernas pareciam não mais querer andar, com uma contusão já curada, que insistia em ser problema. Era então fevereiro, final de verão quando eu não saía de casa, só lendo, escrevendo, quando ela reapareceu.
O peso dos 50 me assolavam, embora os médicos não registrassem qualquer patologia física. Já nos conhecíamos. Há 12 anos eu era um jovem professor num lugar que não era o meu, com uma língua que não era a minha, quando fui convencido, através de um conto seu, que tudo poderia ser azul, me encantei com seu jeito e me tornei seu amigo,ela tinha uma idade que nunca se modificou, parecia ter sempre, vinte e poucos anos. Eu sabia da sua inocência infantil, da sua forma expansiva e alegre de lidar com a vida, e não me importei com o que eu poderia representar para ela.
Fomos amigos no período de um curso e depois nossos encontros foram ao acaso. Quando me separei procurei por ela e pedi o que era impossível, tudo, sem afeto. Ela sumiu. Ficamos anos, talvez meses sem nos ver, mas ela escrevia querendo saber como eu estava. Eu sempre respondia e a convidava, ela às vezes vinha, às vezes não.
Sempre fui assim, gostava de alimentar a ilusão das mulheres que saiam comigo, causar-lhes uma frustração e ficar nelas marcado como uma tatuagem que não sai facilmente, pois subcutânea minha tinta só sairia com cirurgia.
Vivi 20 anos com a mãe dos meus filhos, vivi simplesmente, maritalmente, não tínhamos o molde convencional, pelo menos diante de nós, já que diante da família conservadora não éramos tão diferentes. Tínhamos relações extra-conjugais, mas não muitas, o número suficiente para nos sentirmos vivos dentro do casamento e para criarmos nossos filhos.
Quando decidi me separar, eu já apresentava as características que agora tenho, queria me tornar recluso como o escritor, e viver para mim mesmo, de preferência sem interferência de ninguém. Eu, meus livros, minha pesquisa. Não achava que isso era algo de mais, nem de menos, apenas não queria de novo me sentir preso a uma situação e a alguém, já me bastavam os filhos.
Perto dos meus 50 anos, achava que já tinha vivido quase tudo, restava a mim poucos anos para terminar algumas coisas que queria deixar, meu livro e alguns outros escritos.
Desenvolvi por esse tempo um comportamento estranho. Sozinho em meu apartamento minhas pernas pareciam não mais querer andar, com uma contusão já curada, que insistia em ser problema. Era então fevereiro, final de verão quando eu não saía de casa, só lendo, escrevendo, quando ela reapareceu.
O peso dos 50 me assolavam, embora os médicos não registrassem qualquer patologia física. Já nos conhecíamos. Há 12 anos eu era um jovem professor num lugar que não era o meu, com uma língua que não era a minha, quando fui convencido, através de um conto seu, que tudo poderia ser azul, me encantei com seu jeito e me tornei seu amigo,ela tinha uma idade que nunca se modificou, parecia ter sempre, vinte e poucos anos. Eu sabia da sua inocência infantil, da sua forma expansiva e alegre de lidar com a vida, e não me importei com o que eu poderia representar para ela.
Fomos amigos no período de um curso e depois nossos encontros foram ao acaso. Quando me separei procurei por ela e pedi o que era impossível, tudo, sem afeto. Ela sumiu. Ficamos anos, talvez meses sem nos ver, mas ela escrevia querendo saber como eu estava. Eu sempre respondia e a convidava, ela às vezes vinha, às vezes não.
O tempo passou e nunca nos encontrávamos mais de um dia, ela
sempre que vinha sumia, e eu não ligava, esperava ela ligar. Nunca quis
entende-la pois julgava já saber o que ela pensava.Certas horas me
irritava e me deixava acuado, mas compensava o prazer que me dava.Quando
ela não vinha, eu tinha namoradas dizia a ela.
Então um dia ela
reapareceu.Veio e ficou. Manda e-mail indecente e sugestivo, eu
correspondo, a recebo por meses, ela entra em minha vida, é meu melhor
dia da semana.
Eu começo a andar, minhas pernas não doem, minhas aulas fascinam os alunos, faço planos para mudar de casa, vejo a vida, o movimento ao meu redor, volto a praticar esportes, minha performance na cama me surpreende. Mas não saio com ela, ela vem a mim, e a prendo em minha casa, não a divido com ninguém, eu a sufoco, não com beijos, mas com teorias que a deixam tonta, e ela me ama, me come, me massageia o ego e o corpo.
Quando ela sai está exausta, pesada, confusa e eu leve, satisfeito, em forma para um homem com a minha idade. Me vicio, a vicio.
Até que eu, além de sufocá-la, passo a restringir seu tempo comigo, restrinjo sua forma de amor, sua fala, seus gestos, sua alegria, reprimo-a no que posso. Ela fica confusa, some por dias, reaparece, diz que não suporta. Explode e diz a mim o que eu fingia não ver e não ouvia, sou mais para ela do que eu achava que era.
Não aguento o que ouço, decido que não mais . Ela me procura, me liga, me passa e-mail. Não volto atrás, digo que tudo termina. Ela contesta, mas eu não a aceito.
Já tenho 54 anos, não vou mudar, sou o que sou, um estrangeiro, talvez eu morra amanhã, depois de aprontar meu livro, talvez eu volte para meu país, talvez eu fique doente, talvez eu seja doente, ela não me interessa, já tenho mais de cinquenta, o tempo para mim passou. E agora, agora é esperar.
Eu começo a andar, minhas pernas não doem, minhas aulas fascinam os alunos, faço planos para mudar de casa, vejo a vida, o movimento ao meu redor, volto a praticar esportes, minha performance na cama me surpreende. Mas não saio com ela, ela vem a mim, e a prendo em minha casa, não a divido com ninguém, eu a sufoco, não com beijos, mas com teorias que a deixam tonta, e ela me ama, me come, me massageia o ego e o corpo.
Quando ela sai está exausta, pesada, confusa e eu leve, satisfeito, em forma para um homem com a minha idade. Me vicio, a vicio.
Até que eu, além de sufocá-la, passo a restringir seu tempo comigo, restrinjo sua forma de amor, sua fala, seus gestos, sua alegria, reprimo-a no que posso. Ela fica confusa, some por dias, reaparece, diz que não suporta. Explode e diz a mim o que eu fingia não ver e não ouvia, sou mais para ela do que eu achava que era.
Não aguento o que ouço, decido que não mais . Ela me procura, me liga, me passa e-mail. Não volto atrás, digo que tudo termina. Ela contesta, mas eu não a aceito.
Já tenho 54 anos, não vou mudar, sou o que sou, um estrangeiro, talvez eu morra amanhã, depois de aprontar meu livro, talvez eu volte para meu país, talvez eu fique doente, talvez eu seja doente, ela não me interessa, já tenho mais de cinquenta, o tempo para mim passou. E agora, agora é esperar.
Caixa de e-mail
Fazia tempo que todos os dias olhava na caixa de e-mail as mensagens que tinha recebido. Todos os dias acossava-o o mesmo receio de encontrar de novo um e-mail indesejado.
Antes só se comunicava com ela por e-mail, gostava de receber as cartas e bilhetes virtuais indecentes, que sugeriam uma boa rodada de prazer. Mas com o tempo, depois que ela disse que era apaixonada por ele, a vontade passou, como numa mágica qualquer. Conquistara finalmente o objeto de prazer, então ele não mais serviria para tirar-lhe da seca sexual.
Depois do dia da revelação, pediu a ela não mais o procurasse. Ela desobedeceu, como era de esperar. Ligou várias vezes, ele atendia, incomodamente atendia. Até que um dia parou de atender, deixou de responder aos e-mails, lia o que ela mandava e mais nada.
Uma vez ela mandou um e-mail que parecia tirar-lhe do sério. Não dizia nada, nem nada dizia, não falava indecências, nem convidava para sair, era uma crônica diária, crônica de saudade, respeitosa, que pedia um sinal de vida, apenas.
Não aguentou. O peso de algo que não sabia o que era, fez responder de forma arrogante e taxativa. -Porta fechada, Deixe-me tranquilo. Tenho namorada, firme.
Aquilo seria o suficiente para ela desistir. Não sem antes faze-lo sentir-se ridículo pelo que tinha escrito, chamando-lhe desequilibrado e não civilizado.
Um ato infantil. Fora amedrontado por um bilhete virtual, que poderia ser deletado a qualquer momento, sem leitura que fosse. Ridículo, pela falta de sociabilidade, por se esconder por trás de um suposto namoro sério, por trás de um medo absurdo que o remetia de novo a ela.
Fechou os olhos depois que leu, mas uma vez não sabia como lidar com ela. Fechou a caixa de mensagem. Ela não mais escreveu. Toda dia ele olhava sua caixa, achando que um dia ela pode mudar de ideia. Vive ansioso toda vez que vai ao seu provedor.
terça-feira, 1 de maio de 2012
“Coisas de mulher”
1/05/2012
Comecei um novo blog, “Coisas de mulher”. Talvez eu coloque
algo que fique mais próximo das pessoas.
O dia-a-dia, as imagens, as coisas que são e não são do nosso universo feminino conturbado.
Algo assim leve, as coisas de mulherzinha. Como já
disse faz tempo.
Todas queremos ser
mulherzinhas, indistintamente.
Fazer o que dá na telha,
comprar o que é mais fútil. Ter enorme preocupação com a unha e com a
depilação. Pensar o dia inteiro no homem da vez, quando ele está mesmo na vez.
Muitos dizem que não é isso coisa de mulher interessante, é de mulher fútil que
não tem o que fazer. Tudo uma grande mentira, para minar a coisa mínima de que
é feita a vida.
As grandes preocupações só
sobrevivem se as mínimas estiverem no lugar. Sem essas pequenas as grandes não
existem. Por isso essa série vai falar disso, das pequenas coisitas básicas do
nosso dia-a-dia, que fazem também literariamente a vida ser o que é.
http://florbela-coisasdemulher.blogspot.com.br/
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parte de mim
Falei que estava em processo para minhas amigas. Eu tenho muitas e quase todas sabem dos meus sofrimentos , das angústias etc. Sabem das ...
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O personagem: Homem meia idade: conversa com um amigo - Sim, uma desculpa qualquer faz a idiota cair na minha lábia, sim ela é ...
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A princípio podem as duas coisas do título serem contrárias, mas não são. Nem sei porque digo isso ou faço disso meu título depois de tan...






