Azul
Acordara sozinha com raios de luz que penetravam
pela janela refletindo o azul da cortinas, estava calor e o sol forte anunciava
que já era tarde, do lado da cama, no criado mudo, um pequeno pedaço de papel
mostrava um bilhete.
Ficou pensando sem se mover, não se lembrava
daquele papel, pensou no dia por vir e logo veio à mente uma sensação estranha.
Jamais procedera daquela forma, deixar que seu
corpo a levasse sem medir as consequências, não sabia quem era aquele homem,
nunca o tinha visto até aquele dia num simpósio onde ele era o palestrante,
porém isso não importava, sentia-se atraída pela sua fala mansa, pelos seus
gestos precisos, pelo seu corpo, do qual se via apenas parte do braço
descoberto pela manga da camisa dobrada, disfarçando a fina penugem castanha
que cobria sua pele clara que não chegando com ela a contrastar. Suas mãos eram
como um suave prolongamento de seus braços que conduziam sua fala num
gesticular envolvente. Seus movimentos irradiavam pura energia e o brilho de
seus olhos misturavam calor e sedução junto do desassossego de suas pernas ao
andar pela sala enquanto falava, não fixava o olhar que parecia procurar algo
além das palavras que ouvia saírem de sua própria boca.
Tudo começou quando pensara em ir cumprimenta-lo
após a palestra. Era tímida e isso fazia-lhe insegura, bloqueava suas ações mas
não o seu desejo. Ao olhar aquele homem sentia-se arder, sua boca tornava-se
seca e seu rosto quente, tentava caminhar e seus pés não se moviam, estava
atordoada, tinha medo que todos a olhassem, que falassem dela, que percebessem
sua aflição e isso a incomodava, olhava incessantemente para os lados
dissimulando as atitudes. Correria esse risco? Temeu não ser notada, ser mais
uma entre as dezenas de homens e mulheres que dele se aproximavam .
E se ele a desprezasse? Estaria preparada? Sua
educação tinha sido repressora, em casa, escutava a mãe a dizer-lhe que não
deveria expor seus sentimentos, nem se submeter as paixões, mas não se tratava
disso, não eram seus sentimentos que estavam em jogo, já poderia se permitir
viver aquela situação, porém, e se não
valesse a pena? Se sentiria fácil,volúvel e teria que carregar essa culpa, esse
peso em sua consciência,o que nem o tempo poderia apagar. Entretanto, no
íntimo, já havia decidido, se arriscaria, pelo menos dessa vez.
Foi, ele terminara a palestra e guardava suas coisas,
quase todos já o tinham cumprimentado, ela cumprimentou-o e depois de
convida-lo, saíram para um café que ficava a poucos metros da sala de
conferência. Lá, o burburinho de vozes não deixava que um ouvisse o outro,
melhor assim, ela estava nervosa, não sabia o que dizer, nem o que fazer, só
sabia que estava agindo impulsivamente e nunca fizera aquilo antes. Sua voz que
era suave estava trêmula, procurava não demonstrar sua ansiedade. Pediu um
chocolate com whisque, nunca bebera, mas sabia que o álcool a relaxaria e daria
segurança que precisava para ir adiante. Tomou o chocolate e o calor em sua
boca já a fez sentir-se mais leve e estimulada. Sugeriu então um outro local. O
homem olhou-a surpreso e ela corou, sentiu-se atrevida e a dúvida novamente se
fez presente, pensava no que poderia acontecer, sabia que nem todas as pessoas
entenderiam, quem a apoiaria? Oscilou entre retirar a proposta ou confirma- la,
seus pensamentos se confundiam,sentia no sangue em suas veias um imenso calor.
Teve vontade de se desnudar por inteiro, sem medos ou vergonha, vontade de
dançar suavemente embalada pela canção que soava em sua mente excitada. Queria
seduzir aquele homem por completo, fazendo com que ele lhe desse todo prazer
que nunca sentira, continuou.
Saíram do bar, ganharam a rua, na noite quente e
estrelada soprava uma brisa calma que vinha do mar e arrepiava todos os corpos
numa mistura de frio e prazer, ela levou-o ao seu apartamento, mesmo lugar onde
agora ela se encontrava pensando no que fora sua noite, no quanto havia sido
afoita, e no grande prazer que sentira.
Sentou-se na cama e olhou no espelho que ficava em
frente, pelo reflexo viu o bilhete de poucas linhas que estava ao lado, receou
em pegá-lo. O que teria escrito? Não sabia como tinha se deixado levar. Lembrou
então que seu desejo era incontrolável e que havia se abandonado a ele. Olhou
outra vez para o espelho e agora fitou sua própria imagem nele refletida, não
era feia, e a sensualidade transbordava de seu corpo de forma muito natural
tornando-a bastante atraente, gostava disso,mas, nesse momento o que importava
era o bilhete,não possuía coragem para ler o que estava escrito, talvez por
medo.
Encheu-se de firmeza e tomou então o bilhete em
uma das mãos, levou-o aos olhos e leu. Era um lembrete que ela mesma havia
feito para não se esquecer da palestra que aconteceria naquele dia à noite.